AVISO A POLÍCIA ESTA CONTA E MEU COMPUTADOR ESTÃO SENDO UTILIZADOS POR BANDIDOS A MINHA REVELIA
MORTE AOS INVASORES
Estou repetindo a mensagem que coloquei hoje, 03/07/2016, tendo sido apagada pelos mesmos bandidos que estão impedindo o acesso aos "meus documentos".
Há anos tenho constatado intervenção de indivíduos não identificados em minha conta de internet e arquivos do meu computador. As intervenções não podem de modo algum ser atribuídas a falhas mecânicas. Gangs de fascínoras que estão tentanto dominar a vida dos cidadãos brasileiros, gangs do pior baixo nível tentanto instituir hierarquias absurdas, inferiorizar pessoas, instituir autoridade ilegal sobre vidas, estão atuando, por meio de computador pessoal.
O governo deve ser responsabilizado por permitir dispositivos que praticamente obrigam a usar informática e telefonia celular porém não servido pelo Estado conforme regulação constitucional.
Os processos apenas contra corrupção de desvio de verbas não cobrem os abusos de direitos humanso feitos por torturadores e assassinos que estão atuando nas instituições a partir de domínio sobre micro-informática com extensão nas atividades de invasão de privacidade por parte do business de mídia. Os processos devem cobrir omissão de investigação de atos de desrespeito aos direitos constituídos por parte de criminosos a serem identificados e presos.
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Aos criminosos que estão atuando em meu computador
não há nada de valor na sua vida. tudo o que estão fazendo aqui é crime; tudo o que deve acontecer com vocês é serem condenados a morte, serem assassinados pelo Estado com o objetivo de salvaguardar a existência das pessoas idôneas. nada do que estão fazendo induz qualquer pessoa saudável reconhecer que são algum tipo de ordem a ser obedecida, muito menos inteligência por uso de máquinas idiotas, suas ações são apenas idiotice de porcos imundos, parasitas, vermes impedindo a vida saudável.
não há qualquer possibilidade de se atribuir qualquer fator positivo de qualquer espécie relacionada a ação criminosa de tais indivíduos a serem identificados para sofrer as penalidades cabíveis. não aceitamos intervenção ilegal em nossas vidas.
pagamos impostos e estamos exigindo as garantias constitucionais. não reconhecemos por parte do governo o cumprimento dos deveres constitucionais aos cidadãos enquanto não forem tomadas providências contra o abuso dos direitos perpetrado por tráfico de informática neste país: formação de gangs de assédio moral; prejuízo da informação privada por monopólio de firmas que não são responsabilizáveis pela ação criminosa de vírus e invasores ou talvez dos próprios funcionários; mau atendimento constante por parte de firmas de telecomunicações; monopólio dos documentos públicos pela microsoft; sabotagem da economia por invasão de aparelhos de alto preço, impigidos por formas de uso obrigatório.
consideramos inconstitucional todos os itens relatados.
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O devir das ch 4
Eliane Marcelo
este blog é continuação da série com mesmo título, em que constam também listas com títulos de outros blogs meus que contem trechos do estudo "o devir das ciências humanas". O provedor blogspot impede a apresentação do meu estudo "o devir das ciências humanas" na íntegra, não sendo postável. Alterações de tamanho de letras ou espaços irregulares entre parágrafos ou interrupção da revisão, se houver são de responsabilidade do provedor, não atribuíveis à minha intenção. Este blog é continuação do trecho que está em meu blog intitulado "Enlightment". Os trechos do estudo integral que versam sobre filósofos estão sendo colocados em blogs exclusivos.
Enlightment 2
Habitualmente distinguimos dois
pólos antagônicos na teoria do conhecimento que emerge do século XVII,
racionalismo e empirismo, com que o século XVIII deve lidar, e o faz de modo a
resultar na síntese kantiana que, sendo tal interpretação correta ou não,
julga-se geralmente que tenha favorecido o racionalismo. Ora, para compreender
a emergência das ciências humanas é preciso reconhecer que esse esquema
permaneceu demasiado simplista.
É preciso mostrar o que se
ocultou por trás desses rótulos, a saber, esse outro aporte teórico que marcou
o século XVIII e que costuma ser simplesmente ignorado, por isso a custo
nomeável, de modo que só se evidencia a uma pesquisa mais minuciosa, “histórica”,
logo, aquela que costuma se debruçar sobre o que aparentemente não importa muito ou o que
para os poderes da hora poderia permanecer esquecido.
Vimos tratar-se nesse período de
uma supremacia do “sentimento” . Mas uma reunião dos fatos relevantes,
relacionados ao emergir da Epistemê contemporânea, mostra que esse particular
não se determinou apenas como um fenômeno “estético”, funcionando na verdade
como uma transformação do problema do conhecimento assim como havia sido
deixado pela antinomia Descartes – Locke, o que tanto é a base da compreensão
da inteligibilidade das ciências humanas quanto pode mesmo embasar a inserção
da contribuição de Kant.
Assim o que mais se relaciona a
essa filosofia do sentimento é uma torção fundamental do campo epistêmico, uma
dualidade até então impensável, que torna o discurso da Ideologia, de Condillac e Destutt de Tracy, por exemplo,
inoperante. Torna-se importante então mostrar que no século XVIII estavam em
marcha quatro teorias do conhecimento: a) o racionalismo estrito cartesiano,
como ineísmo da razão; b) a razão empírica de Locke, como domínio racional do “adquirido”;
c) o sentimentalismo ineísta, como o de Rousseau; d) o sentimentalismo do “adquirido”,
como em Condillac. Ora, na transição ao século XIX enuncia-se, e) uma
dualidade básica entre o espontâneo e o refletido, de modo a reposicionar a
dialética do adquirido e do inato, conforme a oposição de domínios passivo
(sentimento variável e mutável) e ativo (reflexão estável).
Foucault localizou Bichat como o
personagem importante dessa transição, pois o sintoma dessa Episteme moderna
começa por se enunciar a partir de sua concepção revolucionária do que opõe as
definições médicas do estado de morte ao da vida, isto é, a transição é
comandada, conforme o esquema do triedo dos saberes proposto em As palavras e as coisas, pelo que ocorre na
emergência da Biologia.
Quanto à problemática das
ciências humanas, creio que é interessante observar como Bréhier também situa,
precisamente aqui, uma nota sobre Bichat, como contraditor exemplar da
Ideologia, mas não por essa oposição e sim pela descoberta de uma dualidade
fundamental entre vida orgânica (órgãos não simétricos, funções de exercício
contínuo como digestão, circulação, etc., que originam paixões “instintivas”
como a cólera ou o temor) e vida animal (órgãos simétricos, funções de
exercício intermitente, entre os períodos do sono, origem do intelecto e da
vontade). Essa dualidade, interditando a via do monismo, estaria na base do
pensamento dessa época, informando tanto a psicologia de Maine de Biran quanto,
mais tarde, a sociologia de Comte, conforme Bréhier.
No entanto, a meu ver, é com
Maine de Biran que se pode localizar a enunciabilidade do percurso de
emergência das ciências humanas porque aqui a dualidade epistêmica fundamental
dessa inteligibilidade de campo, por assim expressar, que torna efetivo o seu
exercício, se pode consubstanciar entre Ser e Existência, ainda que Biran não o
tenha conceituado expressamente.
Mesmo assim podemos observar o
vínculo apontado por Huismann-Vergez entre o pensamento de Maine de Biran e a
filosofia da existência de que, na história dos filósofos, Biran é
considerado um dos iniciadores. Não só por essa aproximação, mas também pelo
modo mesmo pelo qual Biran desenvolve a sua observação do sentido interno me
parece revelar que ele visou efetivamente uma oposição assim enunciável.
A importância do que está em jogo
só pode ser alcançada através de uma recapitulação dos antecedentes.
Utilizando-se, em vez de uma oposição entre “empirismo” e “racionalismo”, uma
conceituação que inclui uma razão empírica e um racionalismo estrito, vemos que
a teofísica cartesiana implicava uma rigorosa separação de matéria e espírito,
mas de modo que a inteligibilidade, pertencendo ao espírito, deveria ser
teologicamente assegurada, garantindo-se assim o ineísmo de ideias e princípios
racionais. A razão empírica de Locke deixava um campo bem mais vasto à
cientificidade, pois implicava na minimização do problema da relação entre
matéria e espírito. Não havia necessidade ou mesmo, talvez, a possibilidade de
esclarecer a dependência do espiritual ao material ou vice-versa, uma vez
resumindo-se os dados ao observável dos fatos da experiência. Essa razão
empírica permanece, a meu ver, como a conquista basilar da cientificidade que
tem seu modelo na física, pois ela permite a maior margem de manobra nesse
campo. Assim a enunciação do princípio do determinismo laplaceano deriva dessa
ambiência empirista.
Ora, o problema da causalidade se
torna assim contornado, não “resolvido”. Na verdade ele é como que
neutralizado. Torna-se impensável, mas agora de modo consciente, positivo, o
que é uma revolução notável, sem dúvida. No entanto, o cartesianismo havia
deixado o problema da causalidade, na problematização de Malebranche, na forma
do ocasionalismo, de modo a permanecer, como fundo do racionalismo estrito, a
dependência a algo mais do que o puro exercício científico, o aporte filosófico-teológico,
mantendo o vínculo com Deus. Só assim algo como a relação entre um impulso do
espírito e seu efeito na matéria poderia ser assegurado.
Aqui entra em cena o personagem
que, ao lado de Maine de Biran, eu gostaria de colocar nesse limiar da Epistemê
contemporânea, a que inclui as ciências humanas. Trata-se de Giambatistta Vico.
Sabe-se que Vico se destaca por sua contribuição à História, enunciando uma
teoria da inteligibilidade histórica em meio ao cenário clássico de maior
desprezo por esse tema como algo “científico”, isto é, na época de maior
influência de Descartes. Ora, Vico estabelece na História o único campo de
conhecimento autêntico a partir dessas premissas cartesianas. Como a via da
causalidade se encontra interdita pelo mais completo dualismo, resta, se não a
teologia do ocasionalismo, uma causalidade certa como a que o ser humano
encontra na base de seus próprios atos, isto é, na história enquanto produto do
fazer humano.
Contudo, a despeito da teoria
cíclica da história de Vico, ou talvez mesmo por isso em relação a que essa
teoria serve como sintoma, só esse princípio de inteligibilidade não implica
numa reviravolta tão decisiva a ponto de determinar algo como uma
inteligibilidade plena do humano. Se, como vimos, é na transição do século XVII
ao XVIII que se enuncia o princípio científico determinista, com Laplace, a
compreensão do que é “ciência” deve agora envolver um campo de objetividade
exaustivamente delimitado. A causalidade histórica preenche essa condição
quanto à inteligibilidade, pois fornece algo como um princípio de plenitude
inteligível dentro desse conjunto de fatos humanos, mas se restringe a uma
temática histórica, não podendo valer para a totalidade dos fatos do espírito.
Mais, ela permitiria, por si só, uma coextensividade da história e do paradigma
epistêmico das ciências da Natureza.
Mais profundamente, tanto a razão
empírica quanto o racionalismo estrito se movimentam na ambiência desse limite
objetivo. É verdade que a razão empírica não depende de um dualismo de matéria
e espírito, mas a sua conseqüência mais importante, a Ideologia, revela o que
ela pode apenas fornecer quando se trata de compreender o ser humano, isto é, o
projeto de uma ciência natural do homem. Assim, resta essa dualidade de corpo –
consciência, como algo a superar pela análise, quando sua instituição como algo
irredutível parece estar na base da reversão da psicologia de Maine de Biran, o
que marca a compreensão de uma Episteme contemporânea, incluindo as ciências
humanas na sua competência não extensível àquela das ciências da natureza.
Uma das conseqüências mais
imediatas dessa dualidade introduzida por Maine de Biran a partir de um
investimento na psicologia, é a compreensão do próprio alcance ou organização
disciplinar. Um tipo de reflexão única como a Ideologia ou a Filosofia deixa de
ser adequado para instituir a competência sobre algo tão complexo como a
natureza da consciência. Torna-se pensável a constituição de uma área de saber
como a psicologia que se forma a partir de conhecimentos oriundos de
disciplinas múltiplas, como a fisiologia, a patologia, e mesmo, nessa época, a
observação interior.
Ora, o que essa observação
interior tem a mostrar agora não pode ser transposto em termos de uma cadeia de
proposições que repousam sobre a identidade da proposição inicial, isso que
Ampère, prosseguindo na via de Biran, vai designar como “a ridícula identidade”,
sem dúvida tendo como alvo o estabelecido por Condillac como princípio da
Análise, pelo qual as proposições derivam , como na geometria, de uma
identidade transformada desde a inicial. O método de Biran consiste, bem
inversamente, em separar os dados do sentido íntimo, a partir da oposição ou
dualidade originária entre aquilo que no espírito é ativo e o que nele é
passivo.
Trata-se de uma decomposição dos
dados imediatos, é verdade, mas agora “decomposição” tem um sentido outro, não
aquele de uma enumeração das formas e caracteres diversos que toma, por exemplo
a sensação, ao se transformar, essas formas e caracteres se recobrindo pelo
termo genérico “pensamento”. Pois desde que a oposição entre o que se sofre e o
que se faz, entre o passivo e o ativo, se torna fundamental, como observa
Bréhier, a novidade imensa não atinge apenas os resultados, mas abarca um novo “plano
de clivagem”, como se à decomposição mecânica por divisão, se substituísse uma
decomposição química, que separa numa realidade aparentemente uniforme os
elementos heterogêneos. A dualidade se torna assim um princípio de proliferação
do saber em áreas convergentes de uma mesma positividade.
Essa oposição de ativo e passivo
se estabelece a partir de um completo ultrapassamento da metafísica da
substância. Pois nesse âmbito substancialista uma questão sobre, por exemplo, a
liberdade, depende de um conhecimento do princípio motor da vontade que só pode
ser concebido a partir da relação entre matéria e espírito, as duas substâncias
que compõem o ser humano. Ora, esse “mistério impenetrável”, conforme a
expressão de Biran, torna-se inútil quando se desloca o foco da pesquisa para o
sentido íntimo que nos faz conhecer o poder que temos quanto à aplicação da
atenção sobre um objeto.
Poder e limites, pois Biran, às
voltas com sua fraqueza e suas doenças, sempre constata na observação interna
que a ação do espírito se localiza entre dois constrangimentos, externo e
interno, o físico, o estado de seus nervos, e o espiritual, aquilo em que o
espírito mesmo é passivo e variável. Nossos sentimentos se interpõem no curso
de uma decisão, do mesmo modo que o estado físico permite ou não uma atividade.
E esses sentimentos, dados tão palpáveis quanto os fisiológicos, são mutáveis
no ser humano.
O sentimento se interpõe, como
também o organismo, entre a subjetividade e seu ser. Parece-me plenamente
constatável a partir da psicologia de Maine de Biran, uma opacidade do ser, não
devido ao devir, mas ao modo mesmo pelo qual o ser é. Hegel se torna
enunciável, opondo o ser humano como não-ser à natureza como ser. Assim Biran
concede também um novo sentido ao devir, pois não se trata de um puro vir a ser
mas de um tornar-se, incluindo a reflexiva, a realidade do espírito.
O hábito se torna um critério de
contraste através do qual se separa o que pela observação do sentido íntimo se
revela passivo ou ativo. O hábito impõe a algumas faculdades a sua degradação,
ao passo que aperfeiçoa certo domínio de atividades que se tornam mais ágeis,
como a percepção. Ora, o hábito tende a desbotar a linha de demarcação que
estende a dualidade originária da consciência, de modo que a própria sensação
aparece apenas como passividade. O que Biran localiza assim não parece ser uma
classificação entre o que é exclusivamente passivo ou ativo, mas um limiar a
partir do que o espírito age sobre aquilo que recebe ou sobre o seu próprio
funcionamento. A memória não se constitui só como armazenagem de dados, mas
sobre esses dados os mais primitivos ela se engendra como uma elaboração
progressiva.
O que a observação deve ter como
objetivo é disponibilizar essa atividade essencial que o hábito mascara como
pura aquisição ou funcionalidade. Se, por exemplo, o pensamento opera através
de signos ou da linguagem, reverter o exercício dessa operação, de modo a
encontrar a atividade que se tornou comodamente supressa pela palavra, repõe o
conhecimento da ideia que estava efetivamente em trânsito no momento de sua
formação, isto é, a atividade mesma do espírito. Ora, esboça-se assim uma
teoria da subjetividade que se torna efetivamente “psicologia” através da
identificação do fato primitivo da consciência, a saber, o esforço muscular pelo
que o “eu” se autopercebe como força hiperorgânica produtora desse movimento
sobre o músculo. A subjetividade se conhece a título de causa agindo sobre uma
matéria que lhe resiste.
Essa teoria do Esforço se enuncia
reduzindo toda autopercepção ao fato básico da aplicação de si como força sobre
aquilo que lhe resiste. Assim o ato fundamental do “Eu” é ao mesmo tempo
afirmação ou posição do mundo exterior. A autoconsciência é sempre união íntima
desses dois elementos heterogêneos, uma força imaterial e uma resistência
material, o “eu” se compreendendo como causa no esforço, inseparável do efeito
que produz. Aqui penso localizar-se o ultrapassamento efetivo da metafísica da
substância a um pensamento da subjetividade que se enuncia pela renúncia do “quê”,
da coisa, pela busca do “como”, isto é, da Atuação.
Aqui me parece inserível a
suposição de que Biran tenha mesmo tido consciência de uma oposição mais
básica, entre Ser e Existência, designável a partir da observação do senso
íntimo, desde a assunção da dualidade do espírito entre o ativo e o passivo.
Assim, Biran não fala do sentimento de ser, mas do sentimento de existência – conscium
sui, compos sui – como correlato da consciência. Expressamente, ele
identifica o “eu” com esse sentimento de Existência, contrastando esse termo
com a ausência de “fundamento interior” no Ser visado como cópula numa
proposição à Condillad, na qual a subjetividade apareceria apenas identificada
com a modificação sensível. Ora, esse sujeito seria apenas proposicional,
vazio, uma vez que o “eu” não é, precisamente, o que se identifica com as
modificações que experimenta, mas o fato primitivo daquilo que lhe resiste. “Subjetividade”
seria assim um termo impróprio.
Considerando a hipótese da
estátua, Biran mostra que a impressão sensível inicial é bem “a concepção mais
simples”, mas não o fato primitivo, pois não há nesse nível subjetividade,
sujeito que conhece opondo-se à coisa conhecida. E essa oposição é aquilo sobre
o que se pode estabelecer o fato de consciência mais básico. A tese de Biran
sustenta que o esforço ou ação desejada ou volição é o verdadeiro fato
primitivo do sentido íntimo. Nesse enunciado cada um dos núcleos de
significação, “fato”, “primitivo”, “sentido íntimo”, é epistemicamente
relevante.
O sentido íntimo se percebe como
volição frente a algo que lhe resiste, no momento do esforço. Certamente esse
algo põe o mundo, mas a forma desse pôr é ainda apreensão da experiência
íntima, o termo resistente é sempre o próprio corpo na experiência da
subjetividade. O fato básico da consciência apreende o “eu”, o próprio corpo e
o mundo no sentimento confuso de uma “extensão interior”. Se conseguimos
levantar os halteres a vitória é, na experiência interna, como que sobre nosso
próprio corpo, limite ou resistência. Não haveria uma experiência que pudesse
ser mais básica do que aquela que se engendra como sentido de Existir, mas essa
experiência, na tese de Biran, só pode se estabelecer no momento em que se
compreende como um “eu”.
Huismann-Vergez observam que essa
teoria do esforço transforma a questão da relação entre alma e corpo, a partir
de Biran, pois até então pensava-se, como Malebranche havia enunciado, que o
esforço era uma prova da limitação humana, uma evidência da impossibilidade da
subjetividade se atribuir como causa de seus próprios atos. Assim Deus só
poderia ser a causa ocasional da efetuação do movimento material que a
subjetividade almejava. O argumento de Biran consiste em mostrar, refutando ao
mesmo tempo esse ocasionalismo e a importância do ser “simples”, que o problema
é que não se observou suficientemente o que opõe uma sensação sofrida – seja um
odor, seja uma resistência – e esse algo que continua a querer, seja aspirar ou
não o odor, seja mover ou não o peso. A experiência interna abrange todos esses
constituintes, mas o que se torna relevante é que a observação pode delimitar
algo que é autenticamente ativo, Liberdade frente a todo dado ou necessidade. A
causalidade auto-experienciada se torna consciência de Liberdade, esse “sentimento
da existência ou do eu”. Vemos assim que a “psicologia” do biranismo se
interpõe como “metapsicologia”, pois a Liberdade assim conceituada já é um
conceito metafísico.
O salto da reflexão de Biran
inclui essa “metafísica experimenta, vivida”, conforme a expressão de
Huisman-Vergez, mas nesse mesmo movimento creio ser possível constatar a
irredutibilidade desse pensamento a uma psicologia como ciência no sentido mais
atual do termo. Ora, é justamente a tese de Canguilhem mostrar que o postulado
da rejeição de certa ideia do homem, da decisão de tratá-lo como instrumento
útil para realizar a adaptação ao meio ambiente, logo, instrumento de
instrumento, é o que marca a emergência da psicologia como ciência no momento
mesmo de sua ruptura com outras disciplinas psicológicas que encontram seu
sentido originário em filosofias ou em antropologias.
Mas essa tese de Canguilhem tem
um sentido polêmico, na verdade uma intenção de resgate da maior pluralidade de
vias, pois uma tal situação “chega a privar, do ponto de vista epistemológico,
o estatuto da psicologia de toda garantia de especificidade” (Châtelet,
história da filosofia, v. 7, a filosofia das ciências sociais, Michel
Bernard, psicologia, p. 38). Conforme Canguilhem, esse postulado
antepõe a ruptura da psicologia atual com a psicofisiologia e a psicopatologia,
com a psicofísica e com a psicanálise, respectivamente associadas ao
aristotelismo, ao mecanismo cartesiano e à “reflexão bironiana” (op. cit. P.
37).
O problema está na centralidade
conferida ao conceito de adaptação na história da psicologia, que Canguilhem
aponta como marco da opção epistêmica de uma filosofia do comportamento ,
contestada como algo justificável por Pagès, que prefere ver a psicologia atual
como área em que uma pluralidade de ramos tendem a se interpenetrar de modo que
o psicólogo não poderia, como pretendeu Canguilhem, limitar-se ao fazer de um
psicotecnicista.
Sem aprofundar o sentido dessa
polêmica, algo que se tornará posteriormente oportuno, penso que o importante é
observar que localizando na oposição Ser – Existência, oriunda do contexto
biraniano, a emergência de uma episteme que inclui as ciências humanas, podemos
ao mesmo tempo compreender a reflexão de Biran na sua atualidade e na sua
limitação. Não me parece que o tratamento da questão da psicologia como ciência
possa ser destacado do tema que a relaciona à experiência, a partir de Fechner
e Wundt, de modo que o “vivido”, a observação do “sentido interno”, aparecem
como características de uma ambiência pré-científica. Na verdade, Biran
voluntariamente se quer singular em relação a um procedimento como o de
Cabanis, “ideólogo” que pretendeu inserir a análise, como ciência natural do
homem, em sua prática de medicina.
O problema então se torna a
situação dessa teoria que já não pode se definir estritamente filosófica, mas
também não chegou a um estatuto como ciência. É interessante observar a
contribuição de Gagey, pela qual pode-se estender uma história da ciência, como
da psicologia, sem o pressuposto de um único estágio de sua validez,de modo que
o estatuto de ciência se mede a cada vez relativamente ao campo epistêmico que
dota de sentido o seu projeto. Ora, quanto a isso penso que o problema real
encontra mais uma vez o sintoma de sua enunciabilidade com Biran, pois as
séries dessa história progressiva da ciência não poderiam ser simplesmente
superpostas, mas teriam que encontrar o foco de iluminação pelo que os valores
do campo poderiam se tornar aquilatáveis. Vejo no biranismo, precisamente, a
constatação desse momento em que o projeto de um conhecimento humano já se
destacou daquele de uma ciência natural, mas ainda não se forjou inteiramente
na via de uma “ciência humana”, uma vez que isso só ocorre quando se constata a
renúncia do discurso, fenômeno de que a “adaptação” de Canguilhem pode ser
sintomático, mas que está bem mais claramente explícito em as palavras e as
coisas.
É por esse motivo que designo
essa época – os períodos revolucionário (1770 a 1800) e pós-revolucionário
(1800 a 1830) como o crepúsculo do “homem”. Aqui o Saber ainda encontra as
figuras de sua própria enunciabilidade, ainda “se” enuncia, por assim
expressar, quando o que ocorre na emergência das “ciências humanas”
autenticamente informadas é que as leis dessa enunciabilidade escapam a todo “vivido”
e se tornam inferíveis apenas no campo transcendental que as suporta. A forma
escapa ao conteúdo, os quase-transcendentais de vida, trabalho e linguagem não
são a composição vazia do que a experiência vem atualizar, mas objetos que se
furtam ao horizonte do evento e que, no entanto, condicionam a sua
possibilidade mesma. Eis porque Foucault pôde observar que as ciências humanas
surgem ali onde o humano não mais está.
Mas podemos pensar que o
situamento da ciência como metafísica, por Heidegger, se embasa na percepção de
que sendo da subjetividade, esse pensamento da modernidade se funda pela
opacidade fundamental do Ser, que se torna irredutível à Existência,
determinando a proliferação constitutiva de uma área epistêmica nas suas
disciplinas “atomizadas”, interditando a unidade do Ser que permite a
postulação de um Pensar que lhe é idêntico. Assim a recuperação dessa unidade
poderia estar na região de uma Existência como originário Ser-Aí do humano. E
de fato, será preciso compreender o percurso das ciências humanas até a época
de Heidegger para tratar esse enfoque crítico da inteligibilidade “científica”,algo
que heidegger empreendeu precisamente a partir de uma percepção aguda da
oposição Ser – Existência assim como enunciada em sua obra Ser e Tempo, de
modo que se opõe tudo o que é ao ser humano que existe. Mas por
agora é importante ver que a opacidade do Ser determinou um domínio novo de
inteligibilidade não-objetiva, mas tão plenamente assegurável quanto o campo
epistêmico laplaceano poderia exigir.
O ultrapassamento da metafísica
da substância se enuncia pela crítica do Cogito, pela qual Biran mostra como
essa reflexão de si sobre si, completamente independente da ação causal sobre o
corpo, conduziu ao isolamento da substância pensante, ela mesma como uma “coisa”,
da substância extensa. Mas seria todo o conjunto do conhecimento até então,
baseado na dualidade de matéria e espírito, que seria preciso deslocar por esse
novo dualismo de Ser e Existência fundando o domínio da plenitude de
inteligibilidade que é o da experiência interna e seus dados imediatos. Ora
esse domínio assegura de modo certíssimo a ligação da consciência como ação
sobre o exterior, o ato originário sendo esforço para vencer resistências. O
senso íntimo não nos dá nenhuma substância, mas uma força ativa, solidária do
termo passivo sobre o qual age atualmente. A interconexão sujeito-objeto não se
põe como uma proposição universal, mas como experiência íntima, incomunicável.
E, no entanto, capaz de fundar um domínio legítimo de inteligibilidade, dotado
de um princípio recolocado de causalidade eficaz, o sentimento do esforço
voluntário como causa atual do movimento, cuja evidência a qualquer pessoa se
efetiva pelo contraste com seu próprio movimento convulsivo do hábito.
O esforço consciente se reporta
sem mediação à atividade dos sistemas musculares, ao funcionamento da visão,
por exemplo, na ação de distinguir as percepções visuais, de modo que se
verifica novamente a dependência da psicologia da consciência em relação à “fisiologia”.
A força hiperorgância que comanda o esforço se transforma em energia nervosa
necessária à contração do músculo, atividade que se torna cada vez mais
automática pelo hábito de modo a liberar a força para novos atos. Ora, a
transição do orgânico ao “espiritual” não está sendo proposta como numa
continuidade. Não se trata da formulação de Bonald, pela qual o humano seria
como uma inteligência servida por órgãos, ou que a ação espiritual se insere na
do organismo como num progresso interno gradual do animal ao racional. O problema
é justamente como conceber a ação do humano sobre sua inserção orgânica, ou
como o centro motor do corpo se põe, como que repentinamente, ou num “golpe de
Estado”, à serviço da força livre do espírito.
Em todo o caso o fato principal é
ver que o humano é duplo: simples na vitalidade, duplo na humanidade, animal e
racional, o que esclarece sobre a pluralidade de fatos primitivos. Ao ato do
esforço sobre uma resistência, ajuntam-se a sensibilidade animal e o estado
místico, esses três fatos aportando uma triangulação epistêmica: a psicologia
depende da fisiologia e mais geralmente dos conhecimentos biológicos que regem
o funcionamento orgânico. Mas também de uma antropologia, pois os agentes
humanos não são redutíveis à individualidade e estendem uma ligação
intersubjetiva, ao mesmo tempo que se absorvem numa realidade abrangente que
Biran nomeia Deus.
Podemos observar o quanto a
dualidade instituída por Biran como originária do espírito, entre o ativo e o
passivo, que penso estar enunciando algo epistemologicamente mais básico como
oposição entre Ser e Existência, está relacionada à emergência do campo de
saber constitutivo das ciências humanas, a partir dos trabalhos de Ampère, tão
mais famoso por sua contribuição à física através da descoberta da lei do
eletromagnetismo (1820). Com efeito, Ampère é correspondente de Biran desde o
inicio do século XIX, e vimos como sua negação da identidade analítica de
Condillac se harmoniza com a cisão operada no biranismo.
Ampère se limita mais à pesquisa
da origem do conhecimento do que propriamente à da consciência. Assim, sua
concepção implica uma progressão do raciocínio, e é isso que o conduz àquela
rejeição da identidade geométrica. Somente o raciocínio progressivo é capaz de
descobrir o Novo. Ampère identifica a possibilidade da progressão através da
intuição das relações existentes entre os dados. Ocorre que essas relações
intuídas são completamente independentes dos próprios dados sensíveis, leis de
coordenação “numênicas”, isto é, ao mesmo tempo constitutivas dos fenômenos e
independentes dos dados sensíveis. Aqui também se pode ver a ligação dessa via “psicológica”
do início do século com o que será a lógica de Hegel, se bem que Ampère já
revele o conhecimento das sínteses a priori de Kant. No entanto, parece que
Ampère interpretou o kantismo como um subjetivismo, de modo que por essa via a
validez do a priori seria apenas fenomênica, Ampère propondo que ela se estende
numenicamente, isto é, ao ser em si do real.
A contribuição de Ampère à
psicologia é sua classificação de fenômenos psicológicos. Inicialmente ele
aceita a oposição de Biran entre fenômenos passivos (não perceptíveis pela
subjetividade) e ativos (vontade e razão), mas interpretando a passividade,
como “sistema sensitivo”, isto é, já como um conhecimento das mudanças atuais
coordenadas por justaposição (autopsia) a que se sobrepõe o conhecimento da
causalidade subjetiva (emestese) localizada a partir do esforço muscular. A
partir desses dois sistemas, autopsia e emestese, nasce a atribuição ao “eu” da
força, e a atribuição à exterioridade da resistência. Ora, a coordenação por
justaposição faculta um sistema independente, o comparativo ou lógico,
formativo das ideias gerais e das classes por semelhança, e ainda um outro
sistema, a sintetopsia ou intuição das relações independentes dos termos. A
sintetopsia localiza as relações que intui com os três sistemas precedentes que
nos fenômenos parecem misturados: a extensão (autopsia), a causalidade
(emestese), a classificação (comparação).
Ampère estende um complexo quadro
de relações que se podem estabelecer através desses sistemas. Aqui importa
reter como Bréhier destaca o desacordo de Ampère com Biran no modo de
concebê-los, pois este pretende liberar um campo de ação puro a partir do senso
íntimo, enquanto Ampère almeja, estabelecendo o conhecimento desde o sistema
básico de autopsia, lá onde Biran só via fenômenos afetivos não acessíveis à
consciência, fundar como que um ponto de partida da validez numênica da física.
Ora, o que me parece importante é que a partir da oposição fundamental, que não
me parece ter sido contraposta, entre o passivo e o ativo, já que trata-se de
estabelecer um nível de relações independentes dos termos dados, Ampère fornece
uma classificação das ciências que já inclui a partição do cosmológico e do
noológico, isto é, da natural e do humano. Assim, se as “ciências cosmológicas”
estudam a natureza exterior, as noológicas estudam o reino humano “intelectual”,
ou seja, um conhecimento da fisiologia do ser humano não poderia estar no
noológico, mas no cosmológico.
Essas ciências noológicas
deveriam abranger, conforme a classificação de Ampère, três áreas bem
demarcadas. A das ciências filosóficas (psicologia, ontologia e ética), as
ciências nootécnicas (tecnoestética ou estudo das artes, glossologia ou estudo
da literatura), e ciências sociais (ciências etnológicas como etnologia,
arqueologia, história, e ciências políticas). No entanto, assim como a “psicologia”
de Biran jamais atinge o estágio experimental, logo não pode ser considerada
uma ciência no sentido restrito da psicologia atual, a classificação de Ampère
ainda se endereçava como uma enciclopédia metódica, que deveria deslocar, é
certo, a dispersão da ordem alfabética mas ao mesmo tempo se instituindo como
um pedagogia racional que hierarquizava as ciências.
Não me parece, portanto, de modo
algum exeqüível qualquer tentativa no sentido de localizar aqui algo como o
surgimento das ciências humanas na sua especificidade, mas sim a emergência do
campo epistêmico no interior do qual elas podem vir a se constituir. É como se
três constitutivos básicos desse campo se tornassem repentinamente articulados.
A causalidade eficaz da história (Vico), o campo destacável da Existência
(Biran) ao que se complementa aquilo que penso poder se designar como razão
hermenêutica (Schleiermacher), pela qual a plenitude de inteligibilidade
quase-objetiva fornecida ao mesmo tempo por Vico e Biran se dota de uma
atualidade singular, a saber, aquela que retroage sobre a autocompreensão do
próprio “objeto”, isto é, o ser humano.
Assim a dependência da
religiosidade, mesmo interior ou não dogmática, em relação à crítica histórica
da Escritura. Ora, o que Schleiermacher constata assim é uma dependência
histórica da própria autocompreensão do ser humano, mas isso de modo que a
linguagem se torna inseparável do pensamento. Sendo, porém, a linguagem algo
absolutamente não universalizável, relativa ao saber, algo como o “infinito
indeterminado”, instaura-se uma relação circular de saber e linguagem cujo meio
é o conceito historicizado, ou a humanidade em seu devir.
Aqui a causalidade eficaz da ação
humana como que se dobra sobre si mesma e se relança num outro tipo de
causalidade, dessa vez a transcendental. Se as publicações de Schleiermacher
datam de 1799 e 1800, sendo contemporâneas dos trabalhos de Kant, já aqui
ocorre uma historização dessa filosofia transcendental que o kantismo tornará
dominante no cenário do saber, de modo que o itinerário do pós-kantismo deve
evoluir no sentido dessa historização que no entanto está de algum modo lançada
na ambiência do seu lançar-se. No entanto esse itinerário parece relevar um
sentido de minimização da relatividade implicada na hermenêutica de
Schleiermacher, de modo que o ápice dessa reflexão surge com o Absoluto de
Hegel.
O que importa reter nesse momento
é a convergência desses fatores conceituais a partir dos personagens históricos
Vico, Maine de Biran, Ampère e Schleiermacher. A questão que se insinua é então
como compreender a “ideologia” – agora utilizando o termo no sentido
contemporâneo de crítica do poder, não no sentido dos “ideólogos” do século
XVIII – que se relaciona a essa cisão no Saber pela qual a opacidade do Ser
instaurou uma região autônoma da Existência. Ora, é inevitável observar que
isso só ocorre uma vez que – e tão logo que – se processa a operação de
hegemonia pela qual a burguesia se instaura como classe dominante.
Essa operação parece ser bem
relacionável com uma cisão incontornável entre Natureza e Cultura, isto é,
entre o que se “é” por natureza e aquilo que se conquista pelo esforço, numa
ideologia de self-made-class. Não seria o “mal-do-século” um efeito colateral
dessa separação do humano e do natural, compreendendo “natural” como qualquer
horizonte de justificação transcendentemente assegurável? O ser humano se torna
aquilo que ele mesmo produziu, sua autocompreensão depende só do que ele mesmo
empreendeu, a humanidade dominou a natureza, mas se encontra só no Universo.
Ora, um vez assegurada a
hegemonia, torna-se exeqüível a inversão pela qual o liberalismo, que havia se
justificado pela compreensão da propriedade como bem do particular enquanto
fundamento do laço de legalidade formado pelo pacto social, pode agora ver a
legalidade mesma como fundamento de toda relação particular assinalável. Pois
essa Ação que permite instaurar um domínio de Existência é menos fortuita do
que a própria passividade condicionante do Ser. É notável a transformação de
mundo pela qual algo como a propriedade pôde ser fundamento do vínculo social,
se pensarmos na ambiência feudal em que tudo devia se basear na vontade de
Deus.
Mas esse vínculo comportava assim
um problema de legitimidade, não por não estar suficientemente justificado, mas
porque restava a questão do modo pelo qual se poderia liberar a Generalização
do particular. No outro pólo, isso se tornava incontornável pelo fato de que só
restava, como contra-oferta, a Vontade de Deus. No entanto a Ação
revolucionária não pôde se realizar enquanto não foi possível o critério da
hegemonia pela qual esse ser de classe se encarregava de valores tão estáveis
quanto aqueles que estiveram na base da sociedade estamental cuja garantia
parece ter sido inteiramente relacionada com uma ética teologicamente
informada.
E do mesmo modo vemos que essas
disciplinas que se erguem agora, a história, a teoria literária, ou mesmo a “psicologia”
espiritualista, exibem como correlato de sua emergência uma confiança em sua
quase-objetividade que as insere sem problemas na ambiência epistêmica do
determinismo de Laplace.
Aqui já se pode observar algo
daquela evolução que conduz, desse período pós-revolucionário, àquele da
emergência das ciências humanas. Por um lado temos um verdadeiro indício dessa
ultrapassagem no desacordo de Biran e Ampère. Entre ambos o que se quer confirmar
é o potencial de quase-objetividade do sentido íntimo, ou esse novo objeto que
se descobriu ao Saber. Mas a insistência mesma de Biran sobre o caráter de fato
atribuível à tendência ou esforço subjetivo pôde ser posteriormente
recuperada como sinal da índole positivista do seu espiritualismo.
Huisman-Vergez destacam a observação de Ravaisson, quanto a isso, já em 1867,
que serviu de base para a conclusão de Gouhier, pela qual “a oposição entre
espiritual e positivo” se torna apenas “um preconceito” no momento em que Biran
estabelece que “um fato não deixa de ser um fato, ao ser definido como interior”
(op. cit. P. 346).
Assim a coexistência de um
discurso do ser humano no interior dessa episteme determinista se estende como
domínio de uma pré-cientificidade paradoxal, pois não se contrapõe
absolutamente mas estende vias de ruptura e de continuidade com as ciências que
ainda estão por emergir, ao mesmo tempo em que seu exercício já tange o domínio
de áreas que estão se constituindo agora. É o que se reconhece, por exemplo,
com Niebuhr , o “iniciador” da historiografia alemã do século XIX, conforme Châtelet,
cuja história de Roma se elabora entre 1811 e 1832. Ora, a profissão de fé
desse historiador é nunca ter dito qualquer coisa, conscientemente, que não
fosse “verdadeiro”. Essa profissão de fé deveria equivaler como a caução da
legitimidade da “ciência” e das “letras”, pois, inversamente só teriam servido
para “corromper” ou “perverter”. “Objetividade historiadora”, conforme a
expressão de Châtelet, que interpreta a novidade de Niebuhr no sentido de uma
coextensividade ao “desejo de controle” que seria “característico das ciências
naturais”.
Assim, enquanto até aqui ora se
tratava o relato conforme sua verossimilhança, ora conforme a inspiração de
chefes ou heróis, ora julgando a evolução social a partir de uma verdade
prévia, conforme Châtelet, agora pressupõe-se que a verdade das seqüências
históricas devem ser estabelecidas e corretamente delimitadas a partir do
próprio fazer historiador, isto é, ocorre a pressuposição de que “a verdade do
passado” surge apenas “do estudo deste próprio passado”. Châtelet completa essa
visão de que a autonomia da história se deve a uma coextensividade das ciências
naturais, traduzida em termos de uma comum “exigência de verificação”.
O que me parece coextensivo é,
sim, a transposição do meio, desde uma epistemologia da justificativa a essa da
legalidade, de modo que o determinismo se torna enunciável como um campo
estável do saber orientado para a indubitável “verdade” – por mais relativa ou
hermenêutica ela conserva a sua chave transcendentalmente fundamentada. No
entanto, não me parece que a emergência dessas áreas “humanas”, assim como das
questões envolvendo a especificidade existencial de certas regiões, se veja
favorecida por uma simples inserção no paradigma da Natureza. Bem inversamente,
creio que esses fenômenos dependem da torção fundamental pelo que se delimitou
uma inteligibilidade plena, mas quase-objetiva, não menos verdadeira, que se
torna operante epistemicamente apenas no âmbito de uma autodelimitação frente
ao domínio outro do Ser.
A partir desse pressuposto,
somente a observação do que ocorre no âmbito de cada ciência esclarece sobre o
sentido histórico de sua constituição no tempo, ao longo do século XIX.
Mas o que se torna extremamente
interessante agora é o que ocorre nessa região aparentemente inerte, entre
os dois domínios considerados. Como é que a objetividade interfere com o seu “quase”,
como é que, inversamente, se desenvolve um anseio por restaurar o “ouvido
poético” no âmbito mesmo das ciências físicas, e em que as oposições que se
instauram no interior de cada domínio devem algo de sua imposição não
inteiramente nomeável a partir da especificidade,mas sim do que se esconde
alhures, na exterioridade do que se pensa “aqui”. A visibilidade da região “neutra”,
mais a constituição progressiva do campo novo dessa inteligibilidade
Existencial devem ocupar o foco das observações subsequentes.
3 )
A plena posição do historiador só
pode ser afirmada pela constatação de uma positividade do seu fazer, capaz de
se impor sobre a forma mesma dessa atividade, a saber, a literatura. Com
efeito, a história da história encontra no século XVIII um capítulo importante,
pois se trata aqui do sentido pelo qual essa independência do ato em relação ao
seu veículo de atuação pôde ser estabelecida.
O contraste exemplar poderia ser
proposto entre Gibbon e Niebhur. Gibbon é o caso paradigmático da
historiografia literária. Carpeaux atribui à sua obra o caráter de “grande
literatura”, mas não apenas isso, permanecendo uma fonte proveitosa de consulta
historiográfica. Vitor Manoel utiliza o “declínio e queda do império romano”,
de 1775, citando o procedimento de John Ellis, como exemplo de obras cuja
origem é extra-literária, mas que se tornam, posteriormente, absorvidas pelo
público no registro da literatura.
Niebuhr, como vimos, é o ponto de
referência da História como ciência, com Châtelet, a partir de que nele se
encontra um projeto de objetividade ligado ao desenvolvimento metódico do
trabalho historiador. Gibbon é sempre citado no círculo dos teóricos procupados
com a história dos gêneros, no plano literário, enquanto Niebuhr aparece
exclusivamente no registro da história da ciência. Carpeaux, por exemplo, não
registra a sua histoire romaine.
Ao se estabelecer como área
epistêmica autônoma, a linguagem da história escapa da região indefinida onde
persistem as interseções que se desdobram na questão em torno dos gêneros. Ora,
o século XVIII representa um ponto chave nessa destinação da hsitoriografia,
pois é aí que a ruptura fundamental com o dualismo matéria-espírito, no rumo do
ultrapasamento da metafísica da substância, está podendo se enunciar como
ruptura com o fundamento dessa dualidade, naquilo em que ele se instituiu como
decisão da Ocidentalização.
Trata-se do fundamento
onto-teo-lógico patrístico-escolástico que dependeu basicamente de uma
compreensão pessimista da história humana bifurcando-se por uma valorização
super-otimista da história espiritual. Nessa perspectiva o espírito, como o que
se opõe à matéria, não tem em si o seu sentido, assim como a história não o
poderia encontrar no presente dos seus acontecimentos.
Nesse aporte agostiniano, não é o
acontecimento presente que faz ou decide o futuro, mas sim o futuro,
escatologicamente interpretado, que permite compreender o acontecimento
presente, isto é, julgar de sua pertinência à descrição, avaliar o seu bem ou o
seu mal. O sentido do espírito é a sua decisão frente à história, mas o sentido
da história é a Redenção pelo Juízo vindouro, de modo que a decisão está entre
a Queda e a Conversão.
Ora, a leitura de Carpeaux
permite assinalar que é no século XVIII que a historiografia deixa de incluir a
versão sacra para considerar apenas a história do mundo, frente a que duas
atitudes parecem razoáveis, a pessimista de Voltaire e Gibbon, ou aquela do “otimismo
progressista” que marcou a ambiência dessa época como responsável pela
descoberta do “mundo histórico” que o Barroco havia condenado, e seria esse,
conforme Carpeaux, o aporte do trabalho de Dilthey sobre o sentido iluminador
da história no século XVIII.
Mas dentro dessa perspectiva
histórica do século XVIII, já descomprometida com o dualismo agostiniano e
ainda movendo-se na indiferenciação dos gêneros, a opção pela leitura disfórica
ou eufórica da narrativa historiográfica se torna reveladora. Ela ao mesmo
tempo demarca de certo modo um limite entre a dispersão do literário e o
esforço metódico, como ainda se relaciona à dotação de sentido do fenômeno da
modernidade.
Assim Carpeaux identifica a
perspectiva disfórica de Gibbon e Voltaire na ambiência enciclopédica da
Ilustração. Uma vez que os fatos atomizados não conservam laços entre si, o
presente só se desenvolve como confluência de forças conflitantes, o
acontecimento resultando de uma pressão interna do tempo, incapaz de se
estender como lógica no limite do Outro acontecimento, ligado a novos fatores,
novos tempos.
Já a visão otimista poderia ser
simetricamente proposta no eixo da organização explicativa de uma História
pensada como inteligibilidade imanente. Ora, essa visão otimista marcou a
ambiência desse período, embasando também a transformação espiritual que
permitiu fazer da história o lugar de uma absorção utópica dos eventos rumo a
uma certa realização prometida, como a reunião das Igrejas no misticismo da
igreja espiritual ou a era da felicidade terrestre prevista pelo racionalismo
que localizava na Razão a evolução confirmada de todas as possibilidades do
humano.
O aporte místico do otimismo se
revelou de um alcance surpreendente. Ele assinala a transformação da
perspectiva espiritual do tempo a partir da ruptura com o dualismo da história
do agostinismo, de modo que a realização prometida pela história exclusivamente
espiritual convergia agora com o horizonte da história do mundo, o que permitiu
a interpretação da modernidade como um novo Gnosticismo, uma redivinização ou
sacralização do mundo, a partir do próprio cristianismo, que teria fornecido o
conjunto de símbolos relacionados à auto-interpretação da sociedade política
moderna.
A nova ciência da política
de Voegelin estendeu esse simbolismo a partir da profecia minelarista de
Joaquim de Fiori: a concepção da história como seqüência de três eras no rumo
de uma felicidade perfeita, a pessoa do líder (príncipe ou super-homem), a
pessoa do profeta desse novo milênio, a irmandade de pessoas autônomas na qual
a Igreja se torna espiritual, não mais uma instituição localizada. O texto
procura reduzir os acontecimentos da história e das ideias da modernidade a
cada um desses símbolos, a utopia marxista e as idades de Comte na seqüência
das Eras, etc.
O essencial é que a
auto-compreensão da modernidade teria sido liberada a partir da imanentização
da Utopia apocalíptica, ou seja, de uma transformação da concepção mesma da
História pela qual ela se dotou de um eidos, uma forma intrínseca a se
desenvolver através do tempo. Isso não me parece transgressivo apenas com
relação a Santo Agostinho ou ao cristianismo ortodoxo, mas também à perspectiva
mecanicista de Descartes, o que torna a hipótese de que todo o fenômeno
do progressismo moderno seja devido a um movimento de imanentização oriundo de
uma evolução do próprio cristianismo, algo duvidosa.
O texto interpreta o
progressivismo das Luzes, de Diderot ou d’Alembert, como uma variante dessa
imanentização que teria acentuado o componente teleológico, o movimento para a
realização, em detrimento do outro componente do simbolismo, o axiológico, que
valoriza mais o sentido do objetivo a alcançar. O utopismo seria, inversamente,
a acentuação do objetivo, ao invés do movimento. Finalmente algo que reúne os
dois componentes, estendendo-se a imanentização à totalidade do símbolo
cristão, resulta no “misticismo ativo de um estado de perfeição a ser atingido
através da transfiguração revolucionária da natureza do ser humano, tal como,
por exemplo, no marxismo”(op. cit. P. 93).
Se o progressismo das Luzes
esconde uma possibilidade reacionária, isso se deve a que, tendo obnubilado o
telos, resta a seleção arbitrária de fatores desejáveis como modelos no
movimento, enquanto no caso do utopismo o problema é a óbvia limitação a um
idealismo inaplicável na prática. No entanto, apesar de parecer que o texto
estende uma compreensão do marxismo como a via correta, o que se pretende é
considerar como falacioso todo o empreendimento de dotar a história com um eidos.
Uma vez que a totalidade da história não pode ser objeto da experiência, o
significado da história é uma ilusão.
Não obstante o texto interpreta a
modernidade mesma como o futuro dessa ilusão, uma Gnose decorrente como solução
ao problema da perda da fé que havia se tornado agudo no declínio da Idade
Média e que o Ocidente teria resolvido abraçando essa possibilidade de
sacralizar a imanência, trazer Deus ao interior da existência do ser humano.
Gnoses intelectuais de Hegel ou Shelling, volitivas de Comte, Marx ou Hitler,
escatológicas como o milenarismo de Joaquim de Fiori, em todo caso mostrando
que essas soluções que parecem tão irredutíveis possuem a mesma raiz. Uma
lógica interna do desenvolvimento político ocidental a partir do imanentismo de
Fiori e mais geralmente das heresias medievais, que se estende pelo humanismo,
iluminismo, progressivismo, liberalismo e positivismo. Mas se a história não
tem uma forma, porque a sociedade teria uma tal unidade? E de que modo se
poderia separar as transformações históricas de uma mesma lógica de
desdobramento social da história mesma? Afinal o texto conclui que existe uma
regra existencial de todo esse ativismo gnóstico, a saber, o totalitarismo, e é
essa a forma final da civilização progressista, o futuro daquela ilusão. Creio
que embutido nessa conclusão está o Apocalipse como esse outro destino
trans-histórico irredutível à materialidade dos fatos: a história do ser humano
não deve ter um eidos, mas o pecado humano tem, assim como para o seu
mau procedimento o ser humano não precisa de auxílio, permanecendo o único
responsável, mas no caso de ser boa a sua ação, então ocorre que Deus concedeu
a Graça.
Carpeaux demarca a relação
daquela dispersão dos fatos, na visão historiográfica de Gibbon ou Voltaire,
que até aqui se explicou como uma conseqüência do enciclopedismo, com o
cartesianismo, uma vez que nele não se admite leis científicas na exterioridade
do mundo físico-matemático. Mas Carpeaux assinala, quanto a isso um paradoxo,
pois uma certa transformação místico-platônica do cartesianismo, o
ocasionalismo de Malebranche, teria suportado uma versão otimista da história
como lugar assegurado da intervenção de Deus. Como o ocasionalismo interpreta
toda conexão fenomênica causal nos termos dessa intervenção, a história seria o
resultado natural de uma constituição de sentido sobrenatural, não tanto
“miraculosa”.
Carpeaux relaciona a atitude de
considerar o passado como progresso rumo ao presente, e por isso de
reabilitação do mundo feudal, com o progressismo otimista. Confrontando a
dispersão dos fatos dos pessimistas Voltaire e Gibbon, parece ser lícito
considerar que Carpeaux relaciona o esforço metódico, simetricamente, a um
certo otimismo. É o caso de Muratori que se caracteriza como precursor da
historiografia científica, a partir de que seu relato se torna profusamente
documentado, não mais apenas um negócio de “contar”, mas de coligir, pesquisar,
avaliar criteriosa e criticamente a aplicação das fontes. Assim, Carpeaux
localiza as “simpatias estéticas” de Muratori pela idade Média.
Isso resulta numa certa ambiguidade
de Carpeaux ao tratar Vico. Certamente uma teoria cíclica da história não pode
ser considerada “otimista”, pois não comporta o progresso sem o retorno da
barbárie. No entanto, Carpeaux não apresenta Vico sem ao mesmo tempo situá-lo
num paralelo com Maquiavel, que também apresenta uma teoria cíclica. Ora,
Carpeaux reverte o pessimismo inerente a ambos, pois Maquiavel conjura a
tendência cíclica “natural” pela intervenção do príncipe como garantindo o
Estado forte que mantém a ordem e o progresso, enquanto Vico pensa a história
sacra dos judeus como na exterioridade do ciclo que repõe estado ciclópico de
natureza, idade dos deuses, dos heróis e dos homens, superpondo-se na mesma
ordem. Sendo essa história sacra dos judeus o modelo da evolução futura do
cristianismo, entre Maquiavel e Vico se estabeleceria uma conversão burguesa.
Como Vico estabelece leis históricas independentes da natureza, sua solução não
depende de um arbítrio intervencionista, a evolução parecendo pragmaticamente
justificada . Com efeito, Carpeaux aproxima Vico de Bacon.
É bastante interessante observar
que numa interpretação oposta, José Guilherme Merquior localiza Vico, numa
convergência com Rousseau e Levi-Strauss, como evidência da impropriedade
daquela versão da modernidade como Gnose mística. Para tanto Merquior deve
considerar esses pensadores como antepostos a qualquer visão progressista da
história que pudesse legitimar uma versão legitimadora da Ocidentalização
racionalizante. O Vico e Levi-Strauss (Merquior, 1970), é bem
abrangente, pois não apenas se apresenta como crítica da versão gnóstica da
modernidade, mas contém instigantes aportes acerca de uma possibilidade
estruturalista na leitura de Vico que importa numa contribuição importante à
problemática da constituição das ciências humanas. Por esse meio verificamos
que qualquer reflexão séria sobre a história implica nessa mesma problemática
de modo que se estende como uma indagação sobre a especificidade dessas
ciências.
Merquior destaca os seguintes
pontos de convergência entre Vico e Levi-Strauss: a) a ideia de uma lógica da
imaginação, que em Vico se apresenta como os conceitos classificatórios da
imaginação e em Levi-Strauss como o caráter lógico do mito e do totemismo; b) a
ideia de contradição entre o resultado e a intenção da ação hsitórica, que
aproxima o parágrafo 110.8 do Scienza Nuova e “a apoteose de Augusto” do
Tristes tropiques; c) a ideia de uma capacidade combinatória do
espírito, em Vico, gerando “ordens” concebidas ou vividas cujo conjunto
constitui a sociedade, que estaria enunciando a noção dos códigos estruturais
que permitiu a Levi-Strauss pensar a etnologia como sendo inicialmente uma
psicologia encarregada da tarefa de compreender o “esquema conceitual”
interposto entre a práxis social total e as práticas específicas que o esquema
governa e define.
Merquior observa que o interesse
por Vico na contemporaneidade se deve, o que também comenta Carpeaux, a Croce.
No entanto, o historicismo idealista de Croce interditou a apreensão do alcance
da visão cíclica da história , ainda assim o mais conspícuo traço na recepção
da obra de Vico. Ora, Merquior pensa que essa visão é “prefácio e complemento
da denúncia de Rousseau ao culto do progresso”. Na evolução espiritual de Vico
ela teria sido “uma resposta às ilusões” da mística de Joaquim de Flore. Mas
também da escatologia de Santo Agostinho e do prospectivismo esclarecido.
O traço de convergência Vico /
Rousseau / Levi-Strauss poderia ser finalmente enunciado como uma crítica
da cultura, algo que se enderaça contra a “beatitude narcisista” da cultura
ocidental no limiar da Revolução Industrial que erigia seus valores como norma
universal e apogeu da história da humanidade. Mas Merquior demarca
cuidadosamente os traços próprios à démarche de Vico, pois a rejeição da
perspectiva unidirecional do progressismo dessa época não deixa de ser
universalista, opondo-se assim ao “gosto herderiano” pela diversidade das
culturas, conforme a expressão de Merquior.
Esse universalismo de Vico se
choca efetivamente com uma tendência que vem se afirmando no século XVIII, no
sentido de conceituar a especificidade cultural da Nação, o que veremos estar
na origem da literatura comparada que Carpeaux localiza na historiografia
pré-romântica de Herder. Na verdade ocorre que essa época pode ser vista como o
apogeu de um processo histórico que vem se desenrolando desde a transição
feudal como construção do Estado moderno, nacional.
Carpeaux salienta assim, através
de uma comparação de Herder, Vico e Montesquieu, o progresso verificado na
ambiência do fazer historiográfico, pois nesses três pensadores ocorre a
evitação dos “anacronismos de Voltaire” por um esforço metódico no sentido de
postular condições de evolução histórica, os fatores geofísicos, em
Montesquieu, as distinções das idades, em Vico. Herder, nesse mesmo intuito,
porém, destacou o sentido espiritual dessas condições e postulou uma cooperação
entre o espírito dominante de cada época e o espírito particular de cada nação
ou raça. A expressão mais completa dessa combinação de fatores seriam as
literaturas nacionais, criando assim a história literária comparada, novo
método histórico, conforme Carpeaux, o “historismo” que domina o trabalho
científico do século XIX, “expressão máxima do espírito burguês”.
Ora, a época de Herder ainda é o
período revolucionário. Assim, essa teoria que prevê o desenvolvimento
histórico como um progresso lento e natural só pôde encontrar acolhida no
momento seguinte, quando a operação burguesa de hegemonia já estava assegurada,
e então o importante era precisamente se dotar de uma compreensão dos fatos
presentes como o estado mais lógico, natural, e estável. Os contemporâneos só
poderiam valorizar Rousseau. Mas a posteridade parece ter visto algo mais no
historismo, e algo completamente não imputável a Herder, utilizou o seu
nacionalismo cultural como substrato de doutrinas totalitárias como o
pan-germanismo ou o pan-eslavismo. Herder conservou a fé no progresso, e aqui
confirma-se a impressão de que Carpeaux vinha mesmo associando esforço metódico
em historiografia e visão otimista da história, pois ele parece concluir da
comparação entre Herder, Vico e Montesquieu, que essa fé era comum nesses
pensadores, mas que Herder apenas havia aproximado esse progresso infinito da
humanidade ao humanitarismo à evolução separada de cada meio cultural singular
ou Nação, como uma convergência, enquanto Vico e Montesquieu consideram esse
progresso mais “em linha reta”.
Vemos que Merquior não interpreta
os ricorsi viquianos numa perspectiva otimista, o que implica a reflexão
sobre o papel histórico de Rousseau. Ora, o que haveria em comum entre Vico,
Rousseau e Levi-Strauss seria o “aniquilamento da cultura”, total rejeição do
evolucionismo. Merquior considera mesmo essa perspectiva como “neo-rousseauismo”,
que teria penetrado na sociologia francesa apenas através de Levi-Strauss
quando, inversamente, ela teria sido o pão cotidiano da kulturkritik
sociológica alemã. A ideia subjacente é que a civilização gera a entropia, a
cultura não só está na rota da dissolução mas é em si mesmo desintegradora, o
ser humano dos tristes tropiques tendo se definido como “uma máquina... aperfeiçoada...trabalhando
para desagregar uma ordem original”.
A atitude não crítica da
sociologia francesa teria sido imposta a partir de Durkheim, a sociologia alemã
tendo se inspirado, inversamente, em Tönnies. Merquior rastreia a relação de
Durkheim com Comte, que, conforme a expressão de Carpeaux, teria com a “sociologia
da Restauração” de de Maistre, Bonald e Donoso Cortés, autores ostensivos da
reação, em comum a “obsessão da anarquia”, como observa Merquior. Conjurar a
desordem parece ter sido algo imperativo no período romântico da Restauração.
Carpeaux observa esse mesmo traço comum entre o romantismo político dos
reacionários alemães, de inspiração herderiana, como Adam Muller, e a
sociologia da Restauração na França. Contudo, Carpeaux mostra que há oposição
entre esses dois movimentos, pois na Alemanha tratava-se, como o qualificativo “herderiano”
já torna explícito, de um ideal da nobreza que é puramente estético e
nacionalista, enquanto na França tratava-se de princípios clássicos e
universalistas. Em comum o catolicismo e o misticismo, de modo que a oposição
não se apresenta como irredutível, Burke, o detrator mais polêmico da
Revolução, estando na confluência desses movimentos.
Merquior relativiza um pouco seu
retrato de Durkheim como um evolucionista que superestima a solidariedade
orgânica da sociedade industrial, ao propor que essa característica seria
apenas um pressuposto ideológico de sua obra que, no entanto, apresenta força
inovadora e atual. Mas na perspectiva de Merquior isso não minimiza o fato de
que a sociologia francesa permanece afastada de uma crítica da cultura até o
estruturalismo. Ora, aqui o fato principal parece ser “a religação das ciências
humanas com Rousseau”, através de Levi-Strauss, enquanto o potencial crítico da
sociologia alemã havia se garantido pela ligação com Nietzsche.
O papel da Revolução se torna
assim ambíguo, pois me parece ser afirmável que na base do élan revolucionário
estava embutida uma visão progressista, o que o Contrato de Rousseau
poderia mesmo caucionar, uma vez que assegurava à humanidade uma destinação
justificada de sua própria constutividade social. No entanto, Merquior acentua
mais o Discurso Sobre a Desigualdade como visão antievolucionista da
história, o que, se explicitamente destacado em Rousseau por Levi-Strauss,
poderia também ser recuperado em Vico, conforme Merquior.
Merquior assinala os limites da
aproximação do estruturalismo com a kulturkritik sociológica do panorama
romântico, pois ali a crítica se associa frequentemente a uma idealização da
sociedade tradicional, do passado medieval como imagem de uma sociedade
orgânica, o que serve como ligação dessa o funcionalismo, versão sociológica da
estabilidade pela qual a estrutura social aparece como conjunto harmonioso de
sistemas funcionais, como em Parsons. A Antropologia Estrutural de Levi-strauss
seria o inverso dessa visão pois aqui os vários sistemas que compõem a
sociedade atuam uns sobre os outros de modo que a tensão entre essas ordens não
coincidentes gera a história. A estrutura não pode ser harmônica, sua
estabilidade é um fenômeno raro.
Merquior observa que a comparação
de Vico e Herder , implementada por Auerbach, continua válida, o que pode
favorecer a convergência Vico / Rousseau / Levi-strauss. Assim, enquanto Vico
pensa o momento primitivo, a idade poética, como já institucionalizado, Herder
propõe a origem como espontaneidade, estado de liberdade instintiva sem leis ou
quaisquer coerções. Ora, o que se interpõe assim com Vico seria o mesmo que a
rejeição da ideia de uma estabilidade constitutiva da sociedade, pois a idade
poética não subsiste para sempre, e a descontinuidade, a tensão no interior da
cultura, também marcando profundamente o pensamento de Rousseau, poderia fazer
de Vico um “precursor da luta de classes”.
Ora, quando se trata de focalizar
essa convergência na ambiência de uma “epistemologia das ciências humanas”,
ocorre uma curiosa reversão desse pessimismo, que me parece informar não apenas
Rousseau, mas o próprio Merquior. O núcleo da elaboração conceitual agora é o
texto de Levi-Strauss, “Jean-Jacques Rousseau, fondateur des sciences de
l’homme” (1962).
Esse texto fornece a convergência
de Vico / Rousseau / Levi-Strauss, na perspectiva de Merquior, através da noção
axial de piedade. Com efeito, Levi-Strauss compreende o Discurso
sobre a Desigualdade como obra pioneira da Etnologia geral,
concomitantemente a Descartes ter rejeitado a tarefa de fundação de uma
sociologia por ter optado pelo início como cogito associal, comos e
fosse possível um percurso do homem diretamente ao mundo sem considerar a
sociedade.
Rousseau, inversamente, utiliza o
conceito de piedade que Levi-Strauss considera apto a assegurar a tríplice
relação da natureza com a cultura, do sentimento com o conhecimento, da
animalidade à humanidade, cada um desses binômios comportando o percurso do
primeiro ao segundo termo. O que a piedade constitui é a presença da
alteridade, a consciência do outro, não como algo decorrente de um
desenvolvimento artificial, mas como algo inerente ao sentir do ser humano.
Assim, o golpe contra o preconceito etnográfico de considerar as culturas não
cristãs ou não ocidentais como “primitivas”envolve essa noção de Rousseau que
Levi-Strauss aplica para explicar o totemismo. A piedade é o fundamento dessa
lógica do sensível em exercício no âmbito da humanidade que não pode ser
separado da socialidade, como na proposição de um conceito vazio de
subjetividade pura.
Vico utiliza a mesma noção de
piedade (pietas) como o “fundamento das nações”. Contudo, em Vico a
noção se constitui a partir de uma aproximação religiosa. Os homens solitários
criam família e sociedade pela presença da ideia de Deus, a divindade como algo
ameaçador que os compele a unir-se para proteger-se mutuamente ou para conjurar
a força desse algo sobrenatural. Vico pensa a instituição do casamento como o
sintoma desse temor religioso na base do fenômeno social, pois esse sentimento
básico de medo perante as forças do desconhecido se transmuta na vergonha do
sexo perante o Deus todo-poderoso. “Nuptiae” vem de “nubendo”, isto é, “cobrir”,
a vergonha de Adão e Eva seria o mitema explicativo do liame social.
Merquior assinala a convergência
dessa explicação do social pela repressão da libido a Totem e Tabu, de
Freud, e observa que Levi-Strauss não se furtou a procurar explicar
estruturalmente essa obra de Freud que localiza a fundação social no pacto
instituído pelos irmãos após o parricídio. Levi-Strauss pensa que o mito
expressa algo que nunca ocorreu de fato. O que o relato mítico tem a fazer é
contra-efetuar a realidade social perene a partir da apresentação daquilo que a
ela se opõe, aquilo que ela se encarrega de fazer jamais ser , o incesto, e que
no entanto permanece como desejo.
A contraposição de Vico a
Descartes poderia também, conforme mostra Merquior recuperando a leitura de
Croce, marcar a especificidade do social e a autonomia das ciências humanas.
Ora, mesmo que a pietas de Vico se informe de uma religiosidade original,
enquanto a piedade do rousseauísmo se enderece mais no sentido de “uma compreensão
do homem que coloca o outro antes do eu”, Merquior considera aqui um ponto de
contato de Vico e Rousseau.
Em todo caso, o que permite a
Levi-Strauss considerar Rousseau como fundador das ciências humanas é que estas
seria epistemologicamente determinadas por essa ideia de alteridade
constitutiva. No entanto, o que o estruturalismo institui como episteme
revolucionária é a substituição do modelo intuitivo de verdade, o critério
cartesiano de evidência imediata, por uma busca do significado além de qualquer
imediatidade. A compreensão dos fatos depende de algo oculto, surgindo como
resultado de um conjunto de operações lógico-interpretativas. Isso abarca ao
mesmo tempo a ultrapassagem do senso comum e as estratégias do descentramento
ideológico.
Conforme Merquior, Vico parece
ter consciência desse ocultamento fundamental, pois a oposição ao método
cartesiano já se propõe em suas pesquisas etimológicas, de modo a resgatar o
sentido oculto. Aqui Merquior realiza uma espécie de mapeamento geral do saber
humano de sua época, pois mostra que ele se estava caracterizando por uma
clivagem fundamental entre o neo-rousseauísmo estruturalista representado por
Levi-Strauss, Heidegger, estendendo-se a Chomsky , e o neo-cartesianismo
fenomenológico representado por Husserl, Merlau-Ponty e Paci. Como o traço
fundamental do estruturalismo é o ocultamento do sentido, ele de algum modo
pode ainda ressoar com o construtivismo epistemológico de Peirce, que Max Fich
havia mostrado ter sido antecipado por Vico, que Merquior mostra também
explicitamente associado ao estruturalismo por Leach.
Atualmente o estruturalismo não
apresenta a característica de uma quase consensualidade, como ocorria na década
de setenta. Concordo com Merquior quanto à hesitação frente a uma “existencialização”
do cogito, seja ele epistemológico ou cartesiano. Mas creio que uma
aproximação muito radical de Heidegger com o estruturalismo minimiza
precisamente o que há de extremamente importante na via da Existência como
oposta, ou autônoma, em relação ao Ser, de modo que o dasein
heideggeriano procura recuperar a existencialização dentro da noção abstrata de
ser, transformando inteiramente seu sentido.
Assim a questão das ciências
humanas não precisa prescindir de sua complexidade, pois ao mesmo tempo que
essa oposição demarca a possibilidade do seu emergir, o efetivo exercício
dessas ciências não pode se traduzir como simples coextensividade a essa
possibilidade mesma, mas recobre uma série de relações complexas com a
objetividade. Heidegger considera, por exemplo, a teoria científica da
linguagem o mesmo que a técnica dos foguetes, isto é, ele considera que as
ciências humanas enquanto cientificidade se afastam frequentemente do pólo “existência”
para investir sua legitimidade à sombra do modelo da natureza, o pólo que
designo “ser”. No entanto, o resgate da alteridade pode bem ser interpretado na
proximidade do existir, sendo no entanto, redutor pensar que apenas o
ocultamento formal do sentido pode valer como estratégia anti-ideológica. Seria
preciso perguntar antes sobre essa possibilidade mesma, das ciências humanas
emergirem como discurso isento de ideologia.
Não embuti tal premissa na
interpretação da oposição ser/existência como constitutiva da episteme
contemporânea, cenário de inclusão do exercício das ciências humanas. A tarefa
é bem complexa, pois trata-se de procurar ver em que aspectos a ideologia mesma
se contra-efetua, em que sentido ela é constitutiva, como essa clivagem orienta
as oposições, de modo que não se pode simplesmente, por exemplo, associar uma
oscilação ao pólo “ser” ao recobrimento ideológico maior do discurso. A questão
é quando e onde ocorrem quebras do “discurso”, isso mesmo que poderia traduzir
uma prática de saber como ideologia.
Algo dessa polêmica envolvendo a
estrutura, por exemplo, ressurge na oposição Châtelet– Veyne a propósito da
história, o que em Veyne se explicita como uma problemática envolvendo as
ciências humanas na totalidade. Lembrando o que já examinamos a propósito da
perspectiva de Châtelet, o fundamental é sua ideia de que história significa um
fazer que lida com o passado mas que está inevitavelmente atado ao presente,
nele o “fazer” contraefetuando-se , por anular a distância de que o discurso se
revestia na delimitação conscienciosa de si como erudição e como Saber, logo
por anular o efeito ideológico de sua miragem –atemporal, recuperando-se na
enunciação do seu presente, como força destinada a alterar as condições,
precisamente, históricas.
Châtelet pensa assim que muitas
questões surgidas no devir desse fazer da história não valem tanto a pena ser
recompostas – como as oposições explicação/compreensão, estático sociológico /
dinâmico evenemencial, por exemplo. Inversament, Paul Veyne procura destacar a
História como lugar de aplicação das ciências humanas a partir do momento em
que qualquer cientificidade nesse campo se assegura por uma atitude não
narrativa e passiva como aquela dos leitores comuns dos jornais, mas sim
explicativa e singular. Ora, não há fato que já não seja interpretação, como se
sabe desde Nietzsche, o que transforma ao mesmo tempo o problema da verdade e o
foco disciplinar, pois apenas a vocação do inventário permite localizar a
história que, para todos os outros efeitos, é sociologia.
Assim temos aqui a confrontação
de três conceitos: a história narrativa, a evenemencial e a História. O
narrativo não é a História, é pré-ciência, gênero literário. O evenemencial
(evenement = acontecimento) é o lugar do histórico, mas não se confunde com a
História. O evenemencial é a manifestação científica que supõe uma competência
como cientificidade. A História, finalmente, é o não-dito, o impossível de
dizer que a cientificidade des-interditou. Nem toda manifestação é, porém,
evenemencial strictu sensu. Opõe-se o acontecimento, esse ou aquele fato
histórico, às focalizações de longa duração, mas nesse domínio permanece em
comum o fato de realizar o que não se diz, a atitude que, inversamente à
narração passiva, delimita o interior da disciplina, cumpre o que o historiador
pretende, isto é, fazer o inventário completo do passado, resgatar o “gosto”
inerente ao fato registrado, singularizando o acontecimento.
A manifestação salvaguarda o
histórico, a disciplina “história”, mas a competência devolve ao mesmo tempo a
cientificidade, enquanto humana, e a sociologia enquanto centro de convergência
do que se pode designar as ciências políticas. Os historiadores não podem se
debruçar sobre um fato –guerra ou cidade – sem uma teoria sociológica implícita
que define o campo de atribuição desses conceitos. Ora, o que a História
conceitualiza a partir de uma sociologia constitutiva de sua atividade é o
invariante que permite explicar os acontecimentos, atuando sobre variáveis. A
história não pode ser de indivíduos, de sujeitos, mas da singularização dos
fenômenos através da invariância, por exemplo no marxismo, em que a luta de
classes, o modo de produção, a ideologia e o Estado como instrumento da classe
dominante atuam como invariantes que esse ou aquele Estado, esse ou aquele
estágio das forças produtivas, etc, são as variáveis locais.
No entanto, a localização desse
núcleo de cientificidade está mais para Foucault do que para Marx, pois não se
trata de uma redução determinista da estrutura, e sim da maior pluralidade na
via da escolha de problemáticas, de modo que a única coisa que não está
implicado é a continuidade, o quadro didático “narrativo”. Pode-se mesmo
individualizar os fatos sem essa moldura. Por exemplo, escrevendo-se uma
história cujo sumário, ao invés de apresentar, “Roma”, “A Idade Média”, trataria
“Da profissionalização da economia”, “do poder por direito subjetivo ao poder
por delegação”, etc., aqui Veyne fazendo referência a Le Roy Ladurie que havia
tido essa ideia. Veyne enfatiza que o termo invariante pode se compreender como
“estrutura”.
O que essa ideia permite
apresentar é a surpreendente noção de repetibilidade histórica, o único fator
que permitiria saber o que é história e o que é sociologia – ambas escrevendo a
mesma página, aquela por exemplos, esta pela teoria subjacente. Essa repetibilidade
não se depreende da realização. O livro de história já não se distingue muito
de uma obra sociológica. A repetibilidade tampouco repõe qualquer possibilidade
“cíclica”, mas sim a decalagem da variação ao invariante, do esquema às suas
atualizações, da explicação às diferenças. O que reconstitui a inteira
problemática do estruturalismo. Na perspectiva de Veyne, trata-se de nesse
ponto inverter exemplarmente o intertexto, isto é, o artigo de Châtelet que
vinha atuando nos bastidores como aquilo que se estava a “superar”.
Então agora o récit chega
ao seu ápice mostrando que a verdade não é o mais elevado dos valores do
conhecimento, enquanto Châtelet “iniciava” o artigo sobre a história no volume
de ciências sociais de sua História da Filosofia com Niebuhr e a
cientificidade definida na proximidade do verdadeiro. Como Leibniz afirmava,
Veyne constata que aquilo que expôs sobre a História informa um real “rodeado
duma zona indefinida de compossíveis não realizados” (O inventário das
diferenças, p. 42). No entanto, bem inversamente á conclusão de Leibniz
isso não significa uma determinação do mundo por Deus e sim a liberação do Jogo
da máxima inteligibilidade no fazer do humano.
Creio ser possível observar nessa
reversão de Leibniz por Leibniz a vocação mais própria das Ciências Humanas,
sua Transgressão originária como traição do discurso filosófico, isto é, sua
mais completa “tradução”. Esse texto de Veyne como que se reporta à
interlocução da problemática estrutural justamente por ter, na seu otimismo
aparente, suscitado o complexo lacunar que interfere com a temática das
ciências humanas no seu posicionamento contemporâneo.
Essa problemática se relaciona ao
fato de que talvez o estruturalismo não seja mais que uma “controvérsia”, em
vez de ter essa controvérsia se configurado apenas no âmbito do seu
ultrapassamento, na dobradura do seu “pós” Utilizo as notas reunidas por
ocasião de um encontro de pesquisadores a propósito do estruturalismo visado ao
modo de um problema, não como uma resposta, ainda que o subtítulo pudesse ter
sugerido o desejo de manter o estatuto desse movimento como uma via às “linguagens
da crítica” na região das “ciências do homem”.
Inicialmente creio ser importante
mostrar que Michelet, que havia atuado como pivô na polêmica sub-reptícia de
Veyne com Châtelet, retorna agora para resituar toda a questão da história. Com
efeito, em Châtelet o papel de Michelet era o de instituir o momento no qual a
objetividade assegurada com Niebuhr se transmutava na intervenção, no fazer
paradoxal do historiador como agente da história. Châtelet recuperava assim,
sem explicitar, muito do movimento conceitual que envolve o século XVIII,
notadamente a causalidade eficaz como ato humano (Vico) e a circularidade do
saber, da linguagem e da história (Schleiermacher). Veyne arrola Michelet com o
narrativo jornalístico, a passividade do senso comum. Pois para Veyne não teria
sentido um intervencionismo que ignora o trabalho do conceito. Assim Michelet,
escritor da transição, entre os séculos XVIII e XIX, aparece como o pivô da
polêmica mesma que cercou o estruturalismo, a sua renúncia de toda livre
interação, a sua opção pela opacidade do Signo – ainda que Veyne tenha se
esforçado por mostrar que essa monstruosidade era só aparente, que se tratava
na verdade de uma sujeição quase que banal.
Na Controvérsia Estruturalista
Michelet aparece no pronunciamento de Barthes, ilustrando algo que penso ser
importante aplicar nesse contexto de compreensão da emergência da história no
terreno da cientificidade. Ocorre que não se deve relacionar essa emergência no
sentido de uma simples transposição de gêneros, por exemplo, como se até um
certo momento a história houvesse sido um gênero literário narrativo e de
repente ela começasse a se apresentar como um gênero literário
explicativo que só por isso autorizaria a substituir esse grifado por “científico”,
para todos os efeitos práticos. O literário teria sido conservado
extrinsecamente, ele teria se transposto do lingüístico ao metalingüístico
assinalando com isso, um tanto jocosamente, a mudança de departamento do
produto, dos estudos de “letras” para o de “história” ou “ciências sociais”,
enquanto que na onipresença do literário pós-desconstrução à Paul de Mann, o
produto retorna como “a coisa” a classificar.
Muito inversamente a esse vicus
of recirculation – a referência de Joyce a Vico no Finnegans Wake –
trata-se de constatar o que é que determina a cientificidade inerente a essa
textualidade, algo que precisamente não deve estar no texto, ou então é o caso
de tudo ser literatura e retórica, mas na “atitude” ou no método, para que se
trate então de ciência. Ora, Barthes ilustra com Michelet a duplicidade do
sistema temporal estudado por Benveniste em muitas línguas, especialmente no
indo-europeu. Há assim um sistema temporal em que a temporalidade do discurso
se adapta à do falante, a enunciação sendo o momento gerador. Há também o
sistema “narrativo”, que se adapta ao relato de eventos passados, sem
intervenção do falante. Barthes exemplifica. Enquanto “clássicos de estória
popular e a história da França recontados nos livros escolares” se apresentam
nessa temporalidade puramente “narrativa”, um romance de Camus ou a história da
Revolução de Michelet são exemplos de textos naquele outro sistema temporal.
Michelet se identifica com o
ponto em torno do qual todo o discurso gira, assim como o Estrangeiro de Camus
encena uma autobiografia. Trata-se aqui da relação entre o falante e sua
enunciação. Michelet não seria histórico se identificássemos esse rótulo com um
gênero explicativo puro, onde costuma-se encenar uma linguagem sem relação com
o enunciador, o clássico manual escolar. Mas, apesar das restrições de Veyne,
ele pode constar como historiador a partir de uma atitude exatamente
oposta a essa perspectiva, intervencionista, como sugeriu Châtelet, ou
simplesmente “inventariante”. A questão que resta porém, e que Veyne soube
tornar incontornável, é a da articulação entre o inventário e a invariância.
Essa problemática se torna explícita no pronunciamento de Derrida.
Ora, Derrida constrói a sua
argumentação precisamente em torno do trabalho de Levi-Strauss. Inversamente à
oposição de Rousseau, alinhado com o estruturalismo e oposto ao cogito cartesiano
e/ou fenomenológico, Derrida mostra que Rousseau e Husserl mantém em comum com
Levi-Strauss a necessidade de pôr de lado todos os fatos no intuito de
recapturar a especificidade da estrutura, e seria esse o sentido de Rousseau
precisar conceber a origem de uma estrutura, na ruptura com a anterior, a
partir do modelo catastrófico do Discurso, isto é, apelando para a
natureza e as intempéries, trata-se de opor a continuidade ao acaso e ao
descontínuo que cercam o estabelecimento de uma estrutura na sua
irredutibilidade ao narrativo, ao linear. Ora, isto equivale, conforme muitas
vezes se antepôs e conforme Derrida concede, a uma neutralização do tempo e da
História, contrastando-se assim essa questão, central na polêmica estrutural
contemporânea, com a tranquila identificação desse mesmo proceder como traço
distintivo da História, em Veyne.
Não me aprece que Veyne não tenha
tido boas razões para confiar nessa identificação. Recompor o movimento desse
texto de Derrida aos trabalhos de Foucault e ao pós do estruturalismo poderá
evidenciar esse fato.
Derrida entrelaça os temas do fim
da metafísica, da emergência das ciências humanas e de estrutura centrada. Ora,
todas esses “avant la lettre” da estrutura, as tentativas de localizar o
estruturalismo não nomeado no passado filosófico, se reúnem sob o fato de que
uma estrutura com um centro é o mesmo que episteme, discurso, filosofia ou
metafísica e tão antigo quanto essas démarches. Derrida se demora nos paradoxos
da centralidade, mostrando que através da história da metafísica a
impossibilidade de nomear o centro se demarcou pelas estratégias de
substituição desse lugar funcional cujo papel sempre havia sido o de se opor à
totalidade, a estrutura mesma. O centro salvaguardava a livre interação no
interior da estrutura uma vez que ele mesmo estava imóvel (interdito, proibido,
inomeável) e garantia a sua inteligibilidade plena enquanto estabilidade
auto-assegurada.
A história da metafísica vinha
sendo a série de substituições do centro enquanto presença, eidos, arché,
telos, energeia, ousia, aletheia. No entanto o Evento que suporta o récit derrideano
é uma ruptura com essa estratégia de centralidade, quando ela mesma se torna
pensável, logo substituível pelo tema da estruturalidade. Repetição localizada
contrastada com a destituição do Sentido, pois agora a substituição não
substitui sem se substituir pelo processo. O substituinte não ocupa o lugar
como o centro, ele é visto como o papel de uma função de estruturalidade plena.
Derrida identifica o Evento como o momento de conversão da filosofia da
consciência para a problemática da linguagem, isto é, quando ocorre a falta do
significado transcendental, pois tudo se torna sistema ou linguagem ou
estrutura.
Derrida mostra que esse momento é
de uma intensa atualidade. Ora, ele têm sido rastreado como o relato do fim da
metafísica em Nietzsche, Freud ou Heidegger, mas o problema aqui é que a
metafísica pareceu ter exibido o estranho poder de não ser superável pela
simples decisão humana, uma vez que “todos esses discursos destrutivos terminam
prisioneiros de uma espécie de círculo”, a saber, a linguagem mesma da
metafísica de que se servem seus detratores mas o caso é que não há Outro da
linguagem pelo que se poderia meramente expressar qualquer coisa.
Uma dessas aventuras destrutivas
consiste justamente nas Ciências Humanas, e poderia ser descrita como a
aventura do Signo. Ora, o conceito de signo se determina pela oposição do
sensível e do inteligível, do significante e do significado, mas a sua inserção
metafísica consiste em que o funcionamento é uma estratégia de apagamento dessa
diferença, seja pela redução do processo ao significado ou pensamento puro,
seja pela tentativa de ignorar a oposição quando, paradoxalmente, não se pode
fazê-lo sem já estar opondo. Assim a Etnografia nasce no momento em que a
cultura ocidental europeia foi deslocada como a referência universal da
inteligibilidade, no momento em que a pluralidade cultural constitutiva se
tornou incontornável. Mas por mais que queira, conforme Derrida, o etnólogo não
pode rejeitar todas as premissas do etnocentrismo no momento mesmo em que as
denuncia pois elas estão embutidas no seu discurso que repõe insistentemente o
legado da metafísica ainda que as Ciências Humanas se constituem na tarefa de
destruição desse inconveniente passado.
Ora, o exemplo de Levi-Strauss
não poderia ser melhor aplicado, pois o que ele, enquanto etnólogo, estava
procurando era um meio de contornar a oposição natureza/cultura pois não havia
como torná-la aceitável no âmbito desse projeto contra-etnocêntrico, justamente
uma oposição assim, tão manifestamente construída. Todavia, intervém o
escândalo, e Levi-Strauss constata que essa oposição é universal como a
interdição do incesto, e mais, ela é uma oposição universalmente paradoxal pois
parece exigir por essa cosntância, ao mesmo tempo os atributos de natureza e de
cultura: é onipresente, portanto deve ser natural, mas se exerce como
fundamento do liame social, portanto é manifestamente um fato, “o” fato da
cultura.
Derrida observa que isso só tem
caráter de escândalo no interior de um sistema de conceitos que sanciona a
diferença entre natureza e cultura. Ora, o que me parece constatável aqui é o
escândalo desse escândalo, pois essa constatação surge como o mais inesperado
quando ela já havia sido “constatada” desde o início, como vimos ser o caso em
Freud, e principalmente pelo fato de que ela não confronta a conseqüência de
que, sendo assim, a nossa sociedade seria o caso anômalo em que essa proibição
deixou de ser constitutiva no momento em que ela se tornou nomeada no esquema
do inconsciente edipiano.
No entanto, independente dessa
observação, o que Derrida mostra é que Levi-Strauss, ao contornar os efeitos
desse paradoxo através da relativização do valor-verdade, na estratégia científica,
em proveito do método. Conserva-se a oposição inaceitável porque ela é
metodologicamente útil, ainda que não ontologicamente válida. Derrida assinala
assim que esse procedimento crítico da linguagem das ciências humanas sobre si
mesma é um meio eficaz de ruptura com a metafísica. Parece-me assim que Derrida
identifica a positividade de um procedimento oblíquo contrastando-o com as
tentativas de ataque frontal como aqueles exemplificados no início com
Nietzsche e Heidegger.
Ora, esse procedimento se estende
à problemática de estrutura versus história. Se a estrutura é o jogo do Signo
manipulado pelas ciências humanas, cuja cientificidade se assegura pela
consciência mais precisa dessa manipulação – elas se constituem manipulando, ou
seja, reduzindo o campo intotalizável do empírico ao traçado de uma gramática,
à sintaxe que o opera – a história é o suplemento do signo, é da ordem da
intotalização tanto pela abertura ao devir quanto pela não-centralidade do seu
jogar (ser lançado). Ora, a história está para a estrutura como a significação
está para o signo. No entanto, a significação se tornou assim a razão
suplementar, de modo que todo o pensamento se tornou derivado, dependente
do regime significante, sempre em excesso, flutuante – isto é, suplementar, com
relação ao que ele significa. Aqui incide a crítica de Derrida a Levi-Strauss,
A livre interação como repetição
do jogo no empírico da história provoca uma tensão conceitual, se compreendo a
colocação de Derrida, entre “livre” interação, história e presença, porque a
história não seria nem livre nem contínua, dependendo da abrupta emergência da
estrutura – aquele Momento cuja captação por sobre a ordem dos fatos fazia toda
a convergência de Rousseau a Husserl – e se constata assim que esse jogo se
lança entre presença e ausência, de centro como do sentido mesmo do percurso
recuperável de sua continuidade. Ora, Levi-Strauss manifesta uma nostalgia das
origens, uma ética da presença, contraditória com seus próprios resultados.
Levi-Strauss interpreta como
perda do centro, ocidentalização contra-natura, o que Derrida pensa como
não-centro que torna o jogar extremamente feliz – afirmação do acaso, como em
Nietzsche, isto é, da potência. Assim Derrida identifica no interior das
Ciências Humanas duas tendências, uma que a fecha sob o discurso da metafísica
e se endereça a uma intenção de recuperação de uma Origem livre da “livre
interação” ou o que poderia ser uma livre interação autêntica presumida como
tendo existido algures, e aquela que celebra a impossibilidade dessa origem,
que afirma a livre interação como a superação da “carga” humana que seria
justamente o anseio metafísico da presença, da totalização do jogo. O quanto
essa carga marcou a humanidade parece estar evidenciado pela hesitação em
atribuir uma possibilidade a-histórica de escolha: trata-se, parece-me,
da gestação do futuro.
Esse pronunciamento de Derrida me
parece singularmente a propósito para tratar a questão histórica do ponto de
vista do que seriam os folhetos desse estrato designável o Hoje. Assim, ele
ressoa com o problema da Alteridade, tratado por Lacan nesse mesmo encontro. O
que se inter-põe como linguagem ao sujeito é aquilo que define a região do
inconsciente. A linguagem – da mesma natureza do português ou do inglês – é
sempre Alteridade e é por isso que o sujeito não “começa” como uma unidade
frente a um outro, mas como dois, um movimento de Repetição que apaga o que o
sujeito repetiu. No entanto o sujeito aparece como um objeto perdido, a
constituição do sujeito é a introdução de uma perda na realidade. Isso porque a
realidade é o pleno, a linguagem que se completa a si mesma, o sistema do
signo.
O significante não representa o
sujeito para outro sujeito, mas para outro significante. O signo sim,
representa algo para alguém, mas como também Barthes observou, se alguém não é
a não-pessoa (o “ele”), permanece como o indefinido. Assim nos dois casos o
sujeito não se encontra (= perda). O círculo da alteridade, da esfera da
linguagem, faz do sujeito o evanescente que percorre o círculo significante
onde não tem lugar. O desejo desse sujeito evanescente que anseia por se
reencontrar só pode ter por objeto o fantasma, (objeto perdido), o desejo tendo
se tornado a metonímia da significação, logo, o que se interpõe entre o sujeito
e o objeto é a estrutura mesma – sua totalidade.
O gozo (jouissance) do
sujeito se limita pela sua natureza – ninguém pode ir além do que lhe é
suportável mesmo quando se trata de prazer. Mas a cisão do sujeito e do objeto
pela estrutura, a alteridade como totalidade que se inter-põe a cada realização
empírica de sua linguagem ou do seu prazer, é essa impulsão do desejo, sua
evanescência, o anseio pela coisa definida pelo fantasma – isso é o que impede
que o ser humanos seja simplesmente Inércia. Lacan vê aqui o sentido valioso
oferecido à nossa vida – mesmo que esse princípio seja mais o do (des) prazer.
Ora, é exatamente essa relação
entre Alteridade e Totalidade que me parece importante para resgatar a
compreensão das rupturas interpostas entre Rousseau, Kant e as Ciências
Humanas. Assim, penso poder também localizar a transposição de um
estruturalismo que põe o funcionamento como um processo de ventriloquismo,
contraposto ao da bricolagem, ambos não sendo o que se enuncia com a sua “superação”
.
Rousseau, inicialmente. É
interessante que um texto caracterizável como sendo “sobre a desigualdade”
tenha se intitulado “discurso”, enquanto aquele que seria “sobre a sociedade”
tenha vindo a designar-se “contrato”. A desigualdade se expõe como uma
história, o contrato é um ato sociológico. Ora, a piedade parece marcar o
momento de encontro, o fundamento dessa partição. Porque o que interesse de
noções como mana, Wakau, oranda, na perspectiva de Levi-Strauss, era o fato de
serem ao mesmo tempo força e ação, qualidade e estado, substantivo e verbo,
abstrato e concreto, onipotente e localizado, ou seja, ao invés de uma palavra
na livre atuação da linguagem comum das sociedades tradicionais consideradas,
esse termo designava uma função semântica, que deveria assegurar ao pensamento
simbólico sua operação mesma a despeito das contradições que o caracterizam.
Penso que se pode afirmar que o funcionamento ou o emprego dessa palavra
funciona como a metonímia do sistema simbólico que em que ela encontra o
sentido. Ora, esse termo e esse funcionamento se encontra no sistema de
símbolos constituídos por todas as cosmologias, e Levi-Strauss o identifica
como o valor simbólico zero, análogo ao fonema zero que Jakobson havia
contraposto à ausência de fonema.
Mas não se poderia observar aqui
um certo regime de alteridade? Ao invés de uma correlação da natureza como uma
totalidade oposta à cultura, haveria uma noção de não-outro, que transporta a
alteridade para dentro do sistema simbólico ao mesmo tempo em que o sistema
simbólico, como Autor do relato cuja Cena é a origem de certa comunidade como
uma comunidade de cultura, se encarrega de proscrever aquilo que ele não é, a “natureza”
ou exterioridade. A natureza mesma é algo ambíguo, portanto, pois ao mesmo
tempo é o que complementa a cultura, o conteúdo do símbolo, e o que deve
permanecer na exterioridade, seja como o conjurável (conjurado pela cultura,
pelo símbolo), seja como o que conjura (o Sobrenatural, o Poder que informa o
valor zero).
Assim Rousseau ainda é o ser
humano desse complexo que o Ocidente só desloca por uma reversão total desse
regime, ali onde a Alteridade se interpõe como Totalidade, mas não entre a
natureza e a cultura, e sim entre o empírico e o transcendental o ser e o ato
de ser que é o outro do ser. A piedade é assim, no discurso
o que há de mais natural, como se
o outro estivesse antes do eu, mas como essa piedade se verifica até nos
animais, observa-se que esse “outro” é coextensivo ao eu no espaço de uma mesma
dotação de sentido. Assim, quando se trata do ato constitutivo da sociedade, a
alienação – que deveria ser a alteridade – se transforma em religião civil, ou
seja, assegura-se o retorno do Mesmo na coextensividade do sentido.
A observação do que ocorre na
compreensão da História com Kant mostra o quanto esse quadro se reverte pela
causalidade transcendental. Ora, aqui é preciso inicialmente convir que o ser
humano é Mau. O que parece contradizer a expectativa da Razão Prática, pela
qual a Liberdade não mais necessita do apoio de qualquer exterioridade e se
garante pela Lei Moral inscrita na própria Vontade. No entanto, se Nietzsche
deverá opor a vontade de domínio à autêntica Vontade de Poder, quando se tratar
de algo irredutível à localização do kantismo, Kant está opondo algo que se
poderia designar a vontade da lei ao que seria a vontade de exceção. O ser
humano individual é mau, ele é inevitavelmente guiado pela vontade de ser a
exceção à generalidade que o constitui pela lei moral. No entanto, a história é
o espaço do encontro, aí onde necessariamente ocorre a limitação de vontades,
umas por outras, aí onde se é determinado a convir. Individualmente mau, o ser
humano é coletivamente bom, numa fórmula simetricamente inversa à do discurso
de Rousseau.
A história se torna algo duplo,
podendo ser conceituada do ponto de vista filosófico ou do ponto de vista
propriamente disciplinar. Filosoficamente a história se inteligibiliza conforme
uma ideia prática, conforme a exposição de Marco Zingano (Razão e história
em Kant). Ideia cosmopolita, a lei moral sendo a universalidade que unifica
a multiplicidade do desejo, lembrando que essa multiplicidade não é como que
uma possibilidade contornável, mas o modo mesmo de desejar. A unidade é então
composição de um sistema sobre o que se põe à disposição.
Ora, Deleuze procedeu a
aproximação da Alteridade entre Kant e Rimbaud, mostrando que na síntese da
razão pura já se encontra assegurada a separação entre o “je” e o “moi”, pois o
“je” é um ato, a operação de uma síntese do tempo e do que ocorre no tempo, de
modo a estender a cada instante o passado, o presente, e o futuro, enquanto que
o “moi”é o passivo, o receptivo, o eu empírico que experimenta mudanças no
tempo. Rimbaud, autor da fórmula que poderia, conforme Deleuze, tão bem
enunciar essa concepção do kantismo, “je est um autre”, contudo, já situa a
perspectiva da alteridade na ambiência do aristotelismo, pois o que Rimbaud
opõe é a matéria e a forma, como se houvesse uma inocência na matéria, uma
indiferença à forma.
Mas o que percebo dessa forma
vazia, é que, apesar da irredutibilidade das duas críticas, assim como a
operação do entendimento e a da vontade, assegurar paradoxalmente a unidade do
kantismo, há algo comum ao tempo e à lei, uma independência do objeto como do
mundo e da natureza. Mas o que poderia tornar a “natureza” como exterioridade
algo inteiramente destituído de sentido, para inversamente tornar “natureza”
como uma inteligibilidade, contraposta ao caótico dos dados sensíveis, sendo
Razão, vemos que seu exercício não torna a vontade independente da história,
ainda que sem correlação com o objeto, mas inversamente, a torna formalmente a
enunciação da lei dessa “história” . Logo, o vazio é a forma da totalidade
social que reparte o sujeito e o objeto, o bem e o mal.
A forma vazia é o descentramento
do sujeito, e aqui penso estar sendo enunciado o princípio da estrutura enquanto
modo de ser atuado pela sociedade a partir do contexto da operação de hegemonia
burguesa. Uma sociedade como a do Antigo Regime não poderia se interpor como
totalidade à “intromistura” do sujeito, conforme a expressão de Lacan, porque
nela a classe não se determinou pelo ato de sua instituição “sobre” o reino dos
fatos, “sobre” o passado, “sobre” o discurso. Assim Foucault localiza nesse
momento inaugural da epistemê contemporânea, ou da modernidade no pós do
clássico, a quebra do discurso, a entrada na linguagem. A totalidade dessa
sociedade que se instituiu por um Ato não-contratual, mas de posse integral de
sua Inteligibilidade, é agora Alteridade, o Outro é a estrutura não
metonimizada pelo sentido passivo, pela livre interação do Sujeito. Também não
é o “je”, que se põe, a Tese do si na sín-tese do devir, mas a forma que se
inter-põe.
Esse estruturalismo se torna mais
ou menos inviável, como um folheto abaixo, no momento em que a estrutura, que
agora é causalidade transcendental, se deve tornar virtual, com Marx, assim
como observado por Althusser e colegas. Então trata-se do ventriloquismo da
estrutura, e aqui é interessante retornar ao problema da Voz Média, abordado
por Barthes. Conforme esse aporte, Benveniste teria retomado a oposição de Panini
acerca das vozes ativa e média, com o exemplo do sacrifício: na voz ativa o
sacrificador o faz por outro, como sacerdote, na voz média, quem sacrifica é o
ofertante mesmo. Barthes procura assinalar o movimento da literatura atual – “experimentalista”
como em Robbe-Grillet – que consiste em transformar o verbo escrever, de algo
que vinha sendo enunciável na transitividade do ativo, em algo intransitivo,
como na voz média. Essa intransitividade tem a ver, ao mesmo tempo, com a
apropriação do escrever pelo escritor e com a transformação do escrever em um
meio de contestação da subserviência do pensamento ou da existência ao Signo
que se assegura na ideologia mesma do código.
Barthes mostra assim que a
literatura contemporânea apresenta o esforço no sentido de marcar a
irredutibilidade entre a pessoa psicológica e o autor do texto, entre o “eu”
que narra e o “eu” que é narrado, liberando assim o que os linguistas
Damourette e Pinchon designaram o recurso a uma ocorrência de linguagem para
determinar a pessoa, o nun-egocentrismo. Trata-se, a meu ver, de uma estratégia
para subverter precisamente aquele efeito ideológico elementar, conforme a
colocação de Althusser, a miragem do sujeito gerada pelo presente da
interpelação, isto é, pela estrutura da linguagem na pragmática da
interlocução. O num-egocentrismo (num=agora) é um recurso que assegura a
impossibilidade do discurso ser “um lugar em que uma pessoa previamente
depositada é inocentemente restaurada”, conforme a expressão de Barthes que
exemplifica com o “Je suis seul ici maintenant” de Robbe-Grillet em Dans
le labyrinthe.
Ora, no caso do ventríloquo, de
que lado deveria estar o que fala por si e o que fala pelo outro? O boneco fala
pelo manipulador, que fala por si, ou o boneco fala por si, enquanto o manipulador
fala pelo boneco? No exterior de qualquer estratégia, o indivíduo é o boneco
manipulado na medida que sua manifestação não pode ser dada como algo mais ou
salvaguardado de um efeito da estrutura. No entanto, é a própria estrutura que
só existe na recirculação de seus agentes-atores.
No entanto, Nietzsche fez do
lance de dados uma afirmação do acaso, como uma afirmação do jogo, furtando o
virtual dessa imagem do ventriloquismo. Parece haver aqui a confluência do
descentramento, não mais no sentido de que uma classe engendrou no seu fazer o
seu duplo, a outra classe – o descentramento em relação ao transcendental
estando na proximidade da entrada em cena do proletariado. Aqui as Ciências
Humanas emergem como o descentramento mesmo da Cultura, que Establet,
utilizando Bourdieu, mostra ser um sinônimo idealista da noção de formação
social como um todo abrangente, quando a oposição pertinente deve envolver
cultural e social. (Revista Tempo Brasileiro: 36 / 37. A história e
os discursos:Establet, R. Cultura e Ideologia.
Assim, teríamos, ao invés de um
conceito de cultura como o de Benedict, que define o termo como a forma de uma
sociedade, logo, como sua unificação por valores dominantes, o discurso
monstruoso do culturalismo, uma crítica da cultura como oposta à sociedade de
modo que se põe de um lado o social, a estrutura, os níveis, as relações de
força, o significante, e por outro, o cultural, as relações de sentido, o
significado. Por exemplo, a consumação conspícua de Veblen não se explica
apenas pela sociedade como exigência ampliada da reprodução do capital, ou
seja, não se trata apenas de atualizar uma prática econômica, mas de expressar
o pertencimento a um grupo que se opõe a outro.
Com essa oposição é possível
lidar com o conflito cultural de modo a observar, por exemplo, como uma mesma
classe exibe estratégias culturais de contestação que se endereçam no contraste
à cultura que lhe é imposta pela classe dominante como “sua”, isto é, oposta
por sua vez à dessa classe dominante. É o caso da utilização pela cultura
popular da cultura de massas, enquanto que a cultura de massas veicula uma
versão da cultura da classe dominante, para ser imposta às classes dominadas,
que pode se opor à cultura “erudita” dessa mesma classe dominante.
Nietzsche deslocou o problema da
liberdade, desde o contexto da moral e da história, àquele do devir e da arte.
Com isso, penso que ele se coloca no desenvolvimento de investimentos que
atravessam como contracorrente o século XIX, de que podemos ver também algo na
filosofia de Bérgson. Ora, assim podemos compreender como o estruturalismo se
apresentou não mais como a descrição do processo de ventriloquismo, e sim
naquele fazer do bricoleur como enunciava a propósito do seu modo de
tratar os mitos, Levi-Strauss.
Aqui a estrutura como Totalidade
de uma Alteridade se pulveriza, de certo modo, pois não se trata mais de ver
que je suis um autre, mas que a unidade que devia constituir o sujeito
havia se desfeito junto com a impressão de que a cultura europeia era um
universo auto-suficiente capaz de estatuir toda a ordenação do mundo. Algo que
sem dúvida, como mostrou Derrida, está na constitutividade mesma das ciências
humanas.
A irrupção da Revolução
Industrial, quanto a isso, poderia ser equiparada ao papel do príncipe
de Maquiavel, conforme Rousseau: serve tanto ou mais para alertar o povo do que
para instruir o soberano. Se houvesse qualquer dúvida quanto à possibilidade da
monarquia ser mais do que uma instituição de dominação que não considerava o
bem do povo, mas que só funcionava na base de sua exploração, a leitura de
Maquiavel a deveria anular. A Revolução Industrial não permitiu que subsistisse
qualquer utopia de um “estado” como aquele de 1789. É verdade que nesse ínterim
a comuna já se havia pronunciado como o testemunho dessa constatação, óbvia no
desenrolar dos fatos já antes de Napoleão. No entanto, a sociedade industrial
atuou o capitalismo na sua determinação de irredutibilidade entre as classes no
momento da exploração máxima do trabalho.
O descentramento do sujeito se
estabeleceu num estado de coisas complexo, pois o estrutural é percebido na
correlação com as forças do sistema social, e por isso o potencial crítico ou
anti-ideológico ou científico do estruturalismo iria resultar nulo, não fosse a
reversão no interior mesmo de sua elaboração, ali onde o que estava em jogo não
era mais apenas O Outro, comos e fosse o caso empírico de uma relação entre
pessoas, mas tampouco o Outro como a Voz da linguagem, isso que fala por todos
os sujeitos, mas sim esse Outro que não poderia nunca falar, o sujeito
des-centrado que, no entanto, tampouco poderia ser agora apenas “um”: “o”
responsabilizado, “o” culpado, “o” doente, “o” cidadão, “o” sujeito da
Interpelação. A proliferação das diferenças assinala que o devir abole a oposição
simples eu-outro.
Ora, isso põe em jogo aquilo que
Deleuze observou sobre a História em Foucault. Aqui a estrutura como a
invariância não se põe como o regime Significante, o Signo, a subserviência,
mas sim como a proliferação do Jogo, conforme a expressão de Derrida. Ora,
Deleuze mostra que,s e podemos afirmar que Foucault repôs a história na
estrutura – ou os invariantes na história – ao mesmo tempo ele conduziu a uma
história que é sempre a do presente, pois com isso ele teria introduzido o écart
entre história e devir, assim como entre o arquivo (a parte da história, aquilo
que já não mais se está sendo) e o diagnóstico (a parte do atual, aquilo que
estamos vindo a ser). A história separa o que se é do si mesmo que se está
sendo, enquanto que o atual é o Outro com que já devemos estar em coinciência.
O novo, o intempestivo ou inatual na expressão de Nietzche, é o devir que
bifurca a história, o diagnóstico que deve assegurar a continuidade do fazer “historiador”
com outros caminhos.
A história é a “borda do tempo”
que envolve o presente, que o põe na sua alteridade, pois se faz a partir dos
discursos que precisamente deixaram de ser os nossos. Ora, o diagnóstico se
estabelece como esse presente que se põe pelo que difere do que está deixando
de ser, isto que se trans-põe sem adiantar um prognóstico, mas bem
inversamente, ao enunciar que existe liberdade, só se fará o não-conhecido.
Assim, não tem sentido posicionar
a Revolução francesa, como o dispositivo ou agenciamento de poder, como aquilo
que determina a causalidade transcendental, ainda que, quanto a isso,
seja interessante observar que naquele momento da mais extrema ilusão do
Ocidente – no início do século XIX pensava-se que 1789 só havia mostrado que,
como pensava Montesquieu, o regime democrático era o mais inaplicável por ser
essencialmente instável – Kant havia assinalado com a maior firmeza que após o
evento da Revolução comportava um elemento de irreversibilidade no caminho de
uma sociedade racionalizada que seria o mundo republicano.
O que se pode ver é que os
enunciados e os agenciamentos se interpõem na proximidade dos acontecimentos
que permitem conceituar uma região de invariância, algo como um mundo de
sentido que no entanto não está estaticamente coagulado no Mesmo de sua História,
mas que se põe no movimento de constituição de seu horizonte de alteridade, o
passado e o futuro – nem mesmo o Outro é somente um. Afirmar o devir,
não para demarcar os limites da história, mas para compreender o que não se
deixa aprisionar na solidão do Signo. Nesse momento seria forçoso incluir o
ultrapassamento da falta, do desejo como fundamento deslocado ou fantasmático
do sujeito, para confrontar a afirmação do inconsciente como produção, como
atividade, como investimento do campo social. Os folhetos que animam a nossa
história poderiam recuperar uma vontade transcendental subjacente ao
empreendimento psicanalítico de reintroduzir o Outro como Totalidade para
reconstituir um Sujeito operante ao modo de uma Unidade. Universal da
totalidade, Universal da Linguagem ou da comunicação, em todo caso, penso que o
que se torna importante é detectar a dobradura ideológica no interior das
ciências humanas, assim como a sua recusa dessa cumplicidade no interior de seu
Saber.
4.
-
A história é ou depende da
sociologia, mas a sociologia releva mais de uma associação com a psicologia.
Com efeito, não apenas Levi-Strauss concebe uma compreensão que se quer na
proximidade da ciência social, a da etnografia, a partir de uma base
psicológica, mas Freud já havia situado a sociologia como uma psicologia
aplicada. Ora, a psicanálise se desenvolve, por sua vez, na determinação mais
abrangente da História. Por esse vicus of recirculation, é a história
que apresenta um aspecto singular, ao mesmo tempo como motivo e como telos
de uma evolução que pertence ao devir das ciências humanas no percurso mesmo de
sua constituição. Interrogar esse estatuto ambíguo da história torna-se assim
uma tarefa fundamental.
Pois não se trata apenas, na
psicanálise, de ter descoberto uma história que é a do sujeito, e assim ter se
desenvolvido como um desenterramento de estratos consecutivamente sobrepostos
no desenvolvimento de um sintoma ou de uma personalidade. É certo que nesse
mister a descoberta propriamente científica consiste na determinação dos
invariantes dessa história – arqueológica – do sujeito. No entanto, o que se
desdobra por esse meio é uma teoria da cultura, uma leitura da história, que se
endereça como um diagnóstico da sociedade.
O percurso que recobre desde Totem
e Tabu até o Mal-Estar na Civilização testemunha a ampliação de uma
ambição epistêmica. Tratava-se de fornecer a explicação antropológica do
fenômeno de agregação social, inicialmente, e depois a questão já se postulava
como o diagnóstico desse imenso sintoma que se tornou a sociedade. Nesse
ínterim, a teoria da cultura se desenvolveu como uma incursão epistêmica ao seu
próprio âmago enquanto teoria do conhecimento. Assim, conforme Pierre
Kauffmann, como a teoria da transferência origina a teoria da cultura de Freud,
“a genealogia das ciências do homem” enquanto psicanaliticamente informadas,
deriva do “campo de conceptualização” originado por Totem e Tabu , de
modo que “em definitivo, uma epistemologia comparada” é o que precisamos para
nos ser restituído “o itinerário do destino impulsional” – ou seja, a própria “história
da alteridade”. (Châtelet, história da filosofia, O século X. Kaufmann,
P, Freud, a teoria freudiana da cultura, p. 68).
Temos assim uma convergência até
então impensável entre as histórias do sujeito e da cultura, de modo que a
psicanálise, ao mesmo tempo em que erige o nível da historicidade como aquele a
que compete as ciências do humano, só o pode fazer por ter desenvolvido esse
nível como superação da oposição eu / outro, indivíduo / sociedade,
isto é, por ter logrado constituir esses pares numa relação epistêmica própria,
irredutível à simplicidade do que se verifica nos fenômenos de natureza.
No entanto, seria de esperar que
interrogássemos esse estatuto científico da psicanálise, do ponto de vista de
um tempo em que já faz sentido postular algo como uma esquizoanálise. Ora, para
não simplificar, de modo a não apresentar uma oposição simétrica extremamente
redutora dos problemas incontornáveis que nessa região se propõem, aqui
evitarei uma confrontação direta entre Freud e Guattari / Deleuze, e ao
invés, utilizo o contraponto de Bauman, que no Mal-Estar da pós-modernidade (1997)
mostrou que a teorização de Freud respondeu sim, e muito bem, por algo tão
complexo como a Modernidade, se bem que nosso momento já lhe é posterior.
Assim, em vez de categorias universais da psique e do inconsciente, Freud teria
iluminado o sentido mais profundo da autocompreensão moderna, isto é, desde o
sujeito para-si até à civilização em-si. Na atualidade o deslocamento do
sentido fez escorregar muitos desses conceitos chaves da psicanálise,
principalmente devido ao descentramento familiar, de modo que o sujeito de hoje
se constitui, como observam Guattari-Deleuze, na produção e no mundo, bem mais
do que no fechamento da sexualidade dos pais.
Ora, a teoria da cultura de Freud
nos permite compreender assim o fundamental desse momento histórico de
constituição das ciências humanas, na medida em que a psicanálise é o seu
recorte mais completo e abrangente. Pois se, como penso, esse campo epistêmico
principia com a liberação de uma região independente do Ser, a psicanálise o
expressa perfeitamente ao inverter o problema da moralidade.
Aquilo que venho designando como
Existência, ou região de independência frente ao Ser, Foucault conceituou nos
seguintes termos. Excluir a biologia, a economia política, e mesmo a ciência da
linguagem desse domínio do humano, significa que o objeto das ciências humanas “jamais
se dá ao modo de um funcionamento”, ou mesmo de “atividades específicas”
que pertenceriam ao ser do homem. O objeto das ciências humanas se institui “lá
onde se liberam representações, verdadeiras ou falsas, claras ou obscuras,
perfeitamente conscientes ou embrenhadas na profundidade de alguma sonolência,
observáveis direta ou indiretamente, oferecidas naquilo que o próprio homem
enuncia ou detectáveis somente do exterior”. ( op. cit. p. 369). É
porque o ser humano vivo “constitui representações graças às quais ele vive
e a partir das quais detém esta estranha capacidade de poder se representar
justamente a vida”, que as ciências do humano puderam se constituir como um
Logos autônomo.
No cenário de as palavras e as
coisas a liberação das representações de todo domínio do funcionamento ou
da atividade em si, isto é, daquilo que se constitui natureza ou ser, se
correlaciona historicamente ao esfacelamento da Mathesis, na curva de
superação do clássico. Pois um saber absolutamente unificado não poderia jamais
restituir ao humano aquilo que lhe é mais íntimo, seu espaço mesmo de atuação
naquilo em que essa ação não é uma “atividade” regulada pelo organismo, mas
liberada pela linguagem literária, pela criatividade. É por isso que as
ciências humanas dependem da formação do triedo dos saberes, atuando no espaço
que as três faces instituem.
Essa formação responde pela
fragmentação do campo clássico, instituindo-se, cada uma dessas disciplinas,
economia política, biologia, ciência lingüística, na autonomia do seu objeto,
não mais na adjacência daquilo que alhures se constitui.
No entanto, já no cenário da história
da sexualidade a coextensividade dessa liberação tem que ser visada no lado
do poder, não do saber. Assim trata-se de compreender a formação dessa moderna
sociedade disciplinar, o que põe no plano mais saliente o tema da família, esse
núcleo que comanda a emergência da psicanálise. Aqui convergem as pesquisas de
Foucault e Ph. Ariès, mostrando que a família não se constitui como um agregado
natural , mas se realiza progressivamente de modo que esse período que
estamos examinando, na transição ao século XIX, é um momento importante no qual
se está praticamente plasmando a imagem que nos é “normal” da família como um
interior onde se reúnem os adultos e as crianças bem especificados nas suas
peculiaridades respectivas.
Ora, a formação da criança como
algo não redutível a um pequeno adulto se configurou nessa época, juntamente
com a agregação da família, isto é, com a criação dos filhos junto dos pais.
Até então a criança não apresentava nada de particular em relação ao adulto, a
não ser o seu tamanho. Não havia roupas feitas para crianças, por exemplo. Elas
utilizavam peças velhas dos membros mais maduros da família ou peças novas, mas
feitas à semelhança do que os adultos usavam. As crianças se educavam em casas
de outros, os pequenos nobres aprendendo as regras de etiqueta servindo como “garçons”
– meninos, jovens – nas residências de outros nobres, e daí a origem desse
termo, conforme Ariès. Ora, na curva do clássico ao moderno tudo isso se
altera.
A instituição da escola substitui
o antigo espaço de adjacência – as outras casas – de modo que a criança
permanece, nos seus momentos de lazer, no interior da sua própria família. Se
até aqui as crianças muito pequenas, que ainda não se podia ter enviado a
outros, não conhecia dependências particulares, a casa de família sendo
construída como um único espaço em que se sobrepunham adultos e crianças, agora
os projetos residenciais já apresentam a separação de cômodos, tornando-se cada
vez mais impensável que as crianças durmam no mesmo quarto dos pais, o que
antes era costume universal.
É interessante notar que, uma vez
que essa mudança tem a ver com a formação dos espaços sociais de vigilância, a
inserção do trabalho infantil pela revolução industrial pareceu nessa época
como uma providência útil no sentido de manter os menores oriundos de classes
inferiores, que não podiam manter o nível exigido pela escola, sob controle e
supervisão. Assim o problema quanto a essa população infantil era como ser
observada nos períodos de lazer e por isso, estritamente relacionado ao espaço
do trabalho infantil nas fábricas, surgiu o investimento paroquial dominical,
para que se pudesse manter o controle mesmo nessa contingência do ócio.
Bauman observa que Ariès e os
pesquisadores dos hábitos populares associam a mudança no tratamento das
crianças, a descoberta da criança como uma criatura irredutível ao adulto, à
percepção moderna da realidade social, aquilo que localizei como a
autocompreensão da burguesia como self-made-class que se erige sobre a
natureza. Assim, conforme Bauman, essa percepção da realidade social moderna
apresenta a carreira dos seres humanos como processo de amadurecimento, algo
que não ocorre por si mesmo, isto é “não podendo ser deixado à mercê da
sabedoria da natureza” (op. cit. 178). Como observa Bauman, “só a
sociedade moderna pensou em si mesma como uma atividade da ‘cultura’ ou da
‘civilização’” (op. cit. p. 7). Até então a sociedade sempre se havia
postulado na co-extensão de como a natureza prescrevera o ser dos homens, o que
lhes devia ter sido garantido como saber pela mediação do sagrado. A burguesia
descobriu que precisava tomar o destino em suas próprias mãos e assim
procedendo o que se estava desenvolvendo era o progresso, a sociedade como um
produto, um construto, não uma decorrência do Ser.
E de modo geral, sendo essa época
moderna a de uma sociedade panoptizada, cujo centro de convergência é o Olhar,
a criança se torna um objeto privilegiado de supervisão. A masturbação infantil
é o grande tema desse período, sendo visada como o grande mal a vigiar e
combater a todo custo. Todo um processo de formação da consciência da criança
contra o que se considerava, algo bizarramente, um vício inerente à natureza,
se desenvolve durante o século XIX. Especialmente a vigilância encontra assim
uma justificativa e um lugar de exercício.
Ora, é essa família nuclear
composta como que sobre o ego do infans que se tornou o foco da procura
psicanalítica, no momento em que ela pode ser problematizada na exterioridade da
referência ao Ser, na sua representação para-si. O que se enuncia na inversão
do problema da moralidade, que até aqui deveria explicar o recalque, o
desprazer do Sexo. Numa perspectiva do ser, essa conclusão seria óbvia, mas
naquilo em que a focalização mudou do Ser à Existência, é o desprazer do Sexo,
o recalque, que explica a moralidade. Pois na perspectiva inversa, o fato de
não ser preciso uma explicação da moralidade a evidenciava como algo natural,
derivado do ser do humano que pertencia ao sagrado de que provinha.
Somente se essa moralidade se
tornava inatural, assim como o liberalismo explicava pela parcialização da
instância social os males das instituições presentes, ou seja, se dela se
abusasse, sobreviria o recalque, a rejeição daquilo que é o mais natural, o
prazer regulado pela instituição do casamento. Ora, Freud deve então explicar
esse mecanismo do recalque que implica a moralidade como algo inteiramente
construído, a fortiori. Para isso, como para qualquer compreensão do que
pertence genuinamente ao campo de imanência das representações subjetivas nem
sempre conscientes, trata-se de reconstituir uma história. Mas de modo que essa
história sempre se repita.
Como observa Kaufmann, a história
assim instrumentalizada não pode ser pensada como o desenvolvimento de uma ideia.
Penso que se poderia conceituá-la como o avesso da estrutura. Pois, com efeito,
se a interdependência de história e cronologia deve ser agora muito
relativizada, é por não poder ser interpretada em um sentido linear. A história
só se compõe na forma de uma arqueologia que, à semelhança do que estava se
processando no domínio da linguagem, com as descobertas de Grimm e Bopp,
apresenta seus fenômenos por estratificação. Aqui a superação da “ideologia” de
Condillac se completa pela impossibilidade de postular uma explicação a
priori de formas subsistindo umas ao lado das outras por uma ideia tomada
como base. Assim trata-se, em psicanálise, de restituir esses estratos que
compuseram a descontinuidade do sujeito, e se as categorias que jazem, ao lado
ou acima das outras, conforme o estrato em que se as localiza, podem ser
tomadas como verdadeiras constantes estruturais, os movimentos que se insinuam
na formação dessas invariantes podem, contudo, revelar-se como falhados, isto
é, movimentos falsos, movimentos desviados do seu percurso, todo o mapa das
doenças da psique podendo ser assim traçado. A transferência é o cursor desse
traçado, mas se esse mapa constitui o avesso da estrutura, ele ao mesmo tempo
ilumina o sentido estrutural do movimento para a frente, para a cura.
O recalque se explica assim pela
estratificação sociopsíquica que deve recortar no corpo as zonas erógenas.
Freud pensa que inicialmente o corpo da criança é um local de investimento
sexual todo-erógeno, mas que aos poucos, conforme se erigem as fases de
consituição do sujeito, esse todo se repõe sob muitas formas de recorte e
diferenciação até constituir as zonas específicas da erotização do adulto. O
recalque se associa como sentimento de rejeição ligado a uma zona abandonada.
As zonas abandonadas são fantasmatizadas, os impulsos associados ao fantasma
são recalcados.
Mas se aqui intervem uma
importante oposição epistemológica entre condição e causa, deve-se constatar
que Freud situou o fantasma no limite da repartição das zonas, de modo que pode
haver retrospecção dessas zonas pelo fantasma, cuja função é parcializar o
gozo, não deixar que ele se relacione a porções do corpo que devem ser
sexualmente desinvestidas. O ato em curso no recalque é o do afastamento da
lembrança que é o mesmo que o degosto diante do objeto atual.
Compreender, sendo igual a
desenterrar, reporta a história arqueológica ao mito endopsíquico, à atividade
psicomitológica da autorepresentação (projeção) da estrutura psíquica ao seu
próprio sujeito. Ora, penso que assim se pode falar de uma projeção categorial,
pois a psicanálise atua universais mitológicos que encenam a transferência de
modo a permitir a restituição dos folhetos, como dos estratos. O discurso é
ambíguo, assim ele é sintomático, dando conta dos compromissos entre o
inconsciente e o consciente. A psicanálise está lidando por esse meio com uma
noção de verdade que só funciona como efeito na recepção, lá onde deve ser
recolhida, não de onde o discurso devém. O amor de transferência encena o
retorno do recalque e fornece assim o acesso à estratificação formadora da
história e do sujeito.
Está também lidando com a noção
de teorias como sistemas parciais, tópicos, ao invés de sistemas totalizantes,
uma mathésis. Essas teorias parciais apresentam uma dominância, uma
pertinência. Assim a sexualização é um processo epistêmico, o sujeito se
constitui construindo explicações teóricas da sexualidade dos pais, isto é,
interpretando o que ocorre entre ambos os protagonistas do seu voyeurismo.
Essas teorias devem se suceder à medida que falham, cada fracassso sendo
precedido por uma percepção que obstaculiza a construção explicativa anterior.
Assim as teorias são parciais, isto é, devem suceder-se na região de suas
anomalias, mas elas apresentam uma pertinência, como por exemplo, os
componentes do impulso sexual infantil, que impele a criança na via da
sexualidade dos pais, operam já pelo orgânico.
A sexualização saudável, cujo
correlato é a personalidade constiuída, é esse processo epistêmico em que se
constituem os folhetos teóricos que se sucedem na maturação da Explicação
suscetível de refazer, no pensamento da criança, a realidade dos fatos sexuais
que engendram a a relação mesma dos pais na qual a criança vem a existir,
duplamente, a se constituir (como ser biológico, e como personalidade) – a
criança se constitui realmente nessa relação dos pais, seja como organismo,
seja como pessoa.
Mas toda teorização é um processo
cultural, sendo as teorias delírios do mundo, estados posicionais da Existência.
A cultura é sublimação, processo histórico e psicológico, na medida em que a
sublimação libera a potência operacional do intelecto. Assim, as perversões são
movimentos de regressão específicos entre um e outro momento teórico. O que
repõe a história como o destino impulsional, ou seja, sempre a progressiva
organização psíquica dos impulsos desde um narcisismo primitivo até a
constituição inteira da alteridade como estrutura, ao mesmo tempo, do objeto
independente e da Verdade. Por isso a psicose terá um papel tão central na
psicanálise, uma vez que implica “o desmoronamento conjunto” dessa estrutura do
Outro, desse horizonte de alteridade que é também o da Realidade, ao mesmo
tempo wirklichkeit e Realität, o real do sujeito e a verdade do
objeto.
Da fase primitiva ou narcísica,
em que a criança não tem consciência de si como algo individualizado com
relação ao mundo, emerge uma teorização original pela qual a mãe possui um
pênis. Essa teoria original vai precisar ser deslocada quando a criança registrar
uma anomalia, aquela que evidencia o fato de que o pai penetra no corpo da mãe.
A cavidade exigida pela penetração é o problema que se endereça à explicação
anterior da sexualidade dos pais como posse do pênis pela mãe, isto é,
condensando a ambiguidade do Logos na impressão de que é o corpo da mãe que
possui o pênis. Freud localiza aqui a incerteza do obsedado. O limite teórico
implica o isolamento frente ao mundo. Ora, a sexualidade amadurece como
constituição saudável da personalidade quando a criança, sem se fixar nesse
momento inicial, ou no intervalo de sua incerteza, pode asceder a uma teoria
adequada à realidade, concebendo a vagina da mãe e atribuindo o pênis ao pai.
Aqui Freud faz a convergência com a cultura, correlacionando:
Posse do
pênis pela mãe – Matriarcado
Mãe – testemunho dos sentidos –
teorias sensualistas, percepção, ordálias, verdade pela apreensão concreta do
dado.
Posse do
pênis pelo pai – Patriarcado
Pai – testemunho do Intelecto –
representação abstrata, lógica, tribunais, verdade pela prova.
Assim teríamos uma história na
proximidade de uma sociologia que não se propõe como problema a simples
oposição do animal ao humano, mas que interpõe, entre o animal e o homem, o
hominídeo. Nesse estado o mais primitivo, o que existe é a horda com um chefe.
O mito de totem e tabu institui a sociedade a partir do assasínio
coletivo do chefe da horda, de modo que se a autoridade como que se fragmanta
por todos os membros da sociedade, assim constituída pela solidariedade do ato
fundador / transgressor. Esse movimento inicial conduz do chefe ao pai,
do hominídeo ao ser humano, do primitivismo ao animismo das sociedades
totêmicas, narcísicas. As fases sucessivas são a da religião (fixação) e da
ciência (objetividade), sendo que nessa última a sociedade implementou-se como
civilização na qual vigora sem obstáculos o horizonte da alteridade pela
colocação epistemicamente independente do objeto.
No recalque ocorre fixação àquilo
que se oculta, de modo que o fracasso do recalque é o retorno do recalcado,
aquilo mesmo que se deveria rejeitar. Assim o objeto é desinvestido, ocorre
deserção do mundo. Na fase religiosa o ritual desempenha o papel do cerimonial
compulsório do neurótico que não pode asceder à sublimação perfeita, à
identificação com o pai. Freud identifica progresso e patriarcado, sendo o pai
a mediação do sujeito ao objeto, garantindo o bom delírio, aquele que fornece a
re-construção do objeto, na objetificação mais perfeita que é a da
cientificidade.
Ora, a civilização é o lugar do
mal-estar, seja porque a culpabilidade retorna pelo viés do arrependimento pelo
crime, ou pela supressão da natureza no proceso da cultura. A cultura se forma
como o lugar da crença, correlato do narcisismo em que o sujeito se representa
como todo-poderoso ou estende o ser todo-poderoso que cuida e zela
especialmente pelo sujeito. No entanto a crença estende como seu avesso a falta
ou a angústia, associadas ao movimento oscilante entre a insatisfação e a
satisfação cujo meio termo é o social, os outros, a quem nos endereçamos não
apenas como sujeitos de necessidade mas principalmente como sujeitos do desejo.
A angústia é sempre de castração, o estado desse sujeito de desejo sendo o da
derrelição, o estar lançado na exterioridade do sem-cuidado, ao menos até que
sobrevenha o pólo positivo da oscilação, o perigo a que todo sujeito está
exposto no meio social.
Em correlação a essa angústia do
sujeito está o mal-estar da civilização, a culpabilidade. Quanto a esse tema,
Kaufmann parece registrar uma evolução no pensamento de Freud, que se expressa
na importância crescente à noção de impulsos, seu conflito e o horizonte de sua
tensão energética.
Os impulsos de destruição e de
criação (Eros), enquanto conflitantes, são expressos pela culpabilidade (ódio versus
amor). O assassínio do chefe satisfez o impulso de destruição, liberando o amor
que retorna como remorso, ao mesmo tempo em que erige a identificação com o
pai. Constituindo-se por esse meio o Superego, restitui-se ao pai a sua aptidão
a punir a agressão sofrida. No entanto, se com isso o que se põe em
funcionamento é a renúncia impulsional, esse funcionamento tende a se inverter,
transferindo energia para a consciência. Cada renúncia intensifica o Superego,
a severidade, a intolerância da consciência, o que Freud pensa ser o indício da
tendência histórica ao crescimento da culpabilidade coletiva, como o mal-estar
da civilização.
É aqui que se implementa o lugar
do Édipo, pois se a culpabilidade é expressão do conflito entre os impulsos de
destruição e de amor, esse conflito se torna evidente quando se trata da tarefa
de viver em comum, de modo que, enquanto o estabelecimento da comunidade
envolver a família, a culpa se manifestará no complexo de Édipo. A constituição
da consciência é ao mesmo tempo instituição de culpabilidade.
Mas também se propõe o problema
da culpa ao considerar o indivíduo, agora na sua correlação à espécie, como
engendrando a sua humanidade pelo ultrapassamento do instinto e da natureza. A
culpabilidade se torna o preço a pagar da civilização pelo seu abandono do
estado de natureza, aqui expressando-se claramente o conflito, pois esse
abandono reflete o instinto destrutivo. Ora, Freud pensa que a aptidão à
neurose pode ser esse retorno do recalque, esse preço a pagar aos estágios anteriores
instintivos, imposto à racionalidade.
O sujeito traduz essa culpa na
tensão do indivíduo com o meio, a angústia da castração é essa tensão quando o
meio é o social, a angústia de reabsorção (voltar ao inanimado fundido com o
natural) é essa tensão quando o meio é o ambiente físico. Ora, a teoria da
cultura deve situar a progressão epistêmica que se desenvolve entre esses
momentos de angústia até o acesso a uma wirklichtkeit irredutível, ainda
que correlata, à Realität, isto é, a cultura articula através dos
movimentos epistêmicos – do mito, ao direito, à religião, à filosofia e à arte
– a inserção plena do princípio de realidade. Trata-se então, para Freud, de
prover esse significado da arte.
A agressividade e o desejo de
destruição contrapõem-se ao Eros como função de dessexualização. O que se
mostra assim é que há uma quebra na analogia do neurótico ao primitivo, uma
impossibilidade de se formar uma correlação perfeita da série da coletividade
àquela do indivíduo, isto porque a conexão do transferencial e do cultural só
se repõe sob a forma da Ilusão. O silêncio do psicanalista se põe nessa lacuna,
do nada à subjetividade, entre a cultura e o “eu”. O silêncio corresponde à
incerteza quanto à própria identidade
O outro é sempre um despojamento
do sujeito de sua pretensão sobre o mundo. Mas as “grandes instituições
culturais”, o mito, o direito, a religião, se desenvolvem como compensações.
Nelas o sujeito encontra o lugar de onde pode retirar uma identidade
substitutiva do seu narcisismo. Contudo, nenhuma dessas isntituições sustenta
por si a instauração de um campo de atividades novo, ou a emergência de uma
espécie de realidade alternativa. A arte é a atividade que pode constituir esse
campo, a obra apresentando-se como surplus do real. Assim ela desdobra um
momento da criação como fazer do artista (wirklichekeit) e um momento da
obra, que é o objeto produzido enquanto artístico (Realität).
Ora, se as outras instituições
não completam a devolução da plena identidade ao sujeito despojado pelo socius,
ou diante da natureza, a arte assegura a completude do processo de
socialização, porque o que ela produz são fantasmas que asseguram a comunicação
da estrutura social. A sociologia torna-se uma psicologia aplicada por se
encarregar de determinar, a cada vez, em cada caso, a interdependência entre os
impulsos, as variações étnicas e remanejamentos culturais que concorrem na
fixação pela organização social, isto é, por se exercer como o estudo do ser
humano em sociedade. Trata-se de uma realização epistemológica que delimita a
região de atualização efetiva do ser humano enquanto sujeito de um desejo
universalizado pela cultura, precisamente o desejo que reproduz a crença do infans
em sua onipotência , lá onde a crença no ser todo-poderoso, substitutiva
dessa caução, se torna substituída, por sua vez, pela crença numa ordem que se
exerce em benefício de todos os sujeitos, constituindo-os, expressa nas
instituições que controlam a situação de derrelição, operação a ser
complementada, como vimos, pela arte. Complementada,mas não completamente
assegurada, a julgar pelo prognóstico de Freud quanto ao porvir da civilização.
É então esse o momento, já
configurado como aquele porvir, de indagarmos quanto ao prognóstico de Freud.
Insere-se assim a perspectiva da pós-modernidade, na qual o complexo de fatores
que convergiram em torno da família nuclear se transforma. A desagregação
cultural que envolveu a família se estende mais amplamente a um processo outro
de constitutividade social, aquele da desregulamentação e privatização, do
deslocamento do controle que produzia o cidadão – soldado assético modelado
pelo purismo calvinista para a ambiência da sensação pela consumação, que só
pode se erigir sobre a pessoa particular que usufrui. Bauman observa assim que
o desinvestimento do sexo nucleado como instrumento de uma sociedade
ultrapassada se torna correlato da instrumentalização dessa sociedade do
desejo. O prognóstico de Freud obtivera sua validade no domínio de uma
sociedade cujo preço de agregação havia sido o scrifício do princípio do prazer
pelo princípio de realidade. Nosso mundo inverteu esse esquema.
Liberdade do sujeito tornou-se o
valor supremo, referencial a todos os outros, para que os ideias outrora
impostos como a Ordenação Social – a beleza, a limpeza, a ordem – pudessem ter
se tornado a realização mais pessoal na lógica da consumação. Assim Bauman não
prevê a civilização de um mal-estar, mas sim uma civilização cujas
múltiplas malevolências se devem ao fato de ter invertido a busca da segurança
pelo preço do prazer, de modo que agora é a minização da segurança que está na
base dos temores desse “pós”, preço, contudo, a que a sociedade atual não está
disposta a renunciar, por ter entronizado o prazer como seu maior bem , a
felicidade como seu estado de normalidade no paraíso da transmutação dos
valores e da consumação ilimitada.
A conseqüência inesperada é que a
reversão da repressão sexual engendrou uma transformação também na centralidade
do que há para ser visto, da criança aos pais. Se na ambiência moderna de Freud
os pais são objetos do investimento sexual dos filhos, agora são os filhos os
possíveis objetos da sexualidade dos pais, e em vez do temor da masturbação
infantil, o tema contemporâneo de Bauman é o escândalo do abuso sexual dos
filhos pelos próprios pais – Bauman narra como esse temor dominou a cena na Grã
– Bretanha, e como isso determinou um novo tipo de relação entre as crianças e
os pais, tipo marcado pela separação, pela demarcação muito estrita de limites
quanto à gestualidade do afeto, que não deve ser muito “plena” para não dar
ocasião a ser processado pela autoridade pública e ser coagido a provar que não
se estava abusando da criança abraçada e beijada.
Poder-se-ia ver nisso não a
denegação, mas a convergência do aumento do mal-estar na civilização? Ora, o
problema agora é o inverso, pois não se trata de uma culpabilidade com relação
ao pai, que apenas desloca o chefe, mas de uma objetificação da criança no
Logos do sexo, que se torna o alvo, não mais o sujeito, do desejo. Bauman
conceitua esse processo na rota da impessoalização, o hedonismo tendo
paradoxalmente revertido a sexualização das interações e determinado a
ambientação cool das relações interpessoais e até mesmo eróticas, pois
se trata agora nesse campo de uma valorização do encontro corriqueiro e da
impermanência. E repondo aqui a argumentação do anti-Édipo, o que se vê é um
desejo não correlacionado à falta, essa plenitude engendrando, contudo, mais
uma auto-satisfação criativa do que uma tipificação revolucionária como aquela,
dos tempos de predomínio do marxismo, onde havia um forte apelo à união, às
atividades de massa.
É certo que Guattari-Deleuze
pensam sempre em termos de coletividade, mas esse termo está relacionado à
multiplicidade que desloca a “centralidade” do sujeito unificado mais do que a
uma subsunção do aspecto revolucionário do devir à prática conjunta na
extensão. Finalmente as possibilidades de realização virtual liberadas pela
revolução informática também estão nesse processo de positivo isolamento do
sujeito. Em todo caso trata-se de uma transformação na compreensão do desejo,
logo, da necessidade de teorizações atualizadas quanto ao papel do
inconsciente. Mas há algo que, parece-me, Freud nos legou de modo definitivo. A
inserção da historicidade em qualquer compreensão desse papel, e com isso, a
exigência de se posicionar a compreensão de história que se está interpondo no
desenvolvimento teórico que venha a se encarregar desse tema.
5 –
O período que se estende desde a
Revolução francesa até à estabilização da República, isto é, aproximadamente
aquele que recobre aos anos de 1790 / 1870 é bastante complexo, apesar
de, aparentemente, poder ser bem demarcado a partir do contraste entre o
Romantismo e o Realismo. Na verdade esse contraste é bastante cômodo, tanto
mais que, ao situar o Realismo a partir da segunda metade do século XIX, tem a
vantagem de evidenciar a viragem que o fenômeno de estabilização da república
francesa acompanha, isto é, do Realismo aos acontecimentos precursores da
Vanguarda, como o Simbolismo e o Impressionismo.
O que torna esse procedimento
algo mais complexo é a situação paradoxal do Romantismo. Esse é provavelmente o
estilo artístico mais célebre, aquele que se poderia contar como o mais
popularmente acessível. Se perguntarmos, na exterioridade dos estudos
especializados sobre o tema, o que é Romantismo, não há dúvida que não se
deixará de obter uma resposta, por mais vaga que seja, o que não se garante
quanto a Neoclassicismo ou arte de Vanguarda, creio que nem mesmo quanto a Realismo,
que seria mais associado a uma atitude psicológica do que a realizações
artísticas tais como “romance”, “drama”, etc.
No entanto, mais do que com
relação a esses outros movimentos, o rótulo “Romantismo” é o conceito enganoso
por excelência, no que tange à sua definição ou compreensão. Vimos as ambiguidades
que certos conceitos estilísticos de época evocam, o que se ilustrou bem nos
casos de classicismo e neo-classicismo. Mas o problema quanto a isso parecia se
prender a uma sobreposição de duas designações bem diversas em torno de uma
palavra que se utilizava como de sentido único. Assim, o que era o estilo e o
que era a época, eis o que bastava discernir para apreender a complexidade das
oposições em jogo. Mas não ocorre o mesmo quanto ao Romantismo.
Habitualmente esse fenômeno
estilístico evoca a Revolução, a revolta contra o Status Quo, a aspiração a um
mundo em que a pessoa, individualmente considerada, possa ser contemplada no
seu desejo de justiça, fraternidade, equidade. Assim, o Romantismo é visto como
um movimento essencialmente progressista, cujo intuito é a libertação, a luta
contra todas as opressões.
Mas, se podemos efetivamente
postular algo como “O” Romantismo – o que não deixou de ser severamente
contestado – o que o termo recobre é, bem inversamente, a expressão do
descontentamento da classe desfavorecida pela Revolução, os ecos daquilo que
ela personificava como transfiguração idealista de uma época de transição, o
interregno de conservação de um estado de coisas social que está sendo definitivamente
superado.
Com efeito, esse período abrange
a liquidação da nobreza como classe – ela continua a existir como fato social
inteiramente solvido na ordem burguesa – e o nascimento de uma classe
trabalhadora assalariada, o proletariado. As oscilações que a história política
deve assinalar nesse interregno iluminam fortemente a ambiguidade a que essa
transposição social expõe a burguesia, ao passo que esta se decompõe conforme
os interesses de pequenos e grandes. Como eles se alinham com referência ao que
deve surgir, isso que faz tremer a base liberal do compromisso burguês como
sendo o de uma unidade exemplar, a que a racionalidade mesma devia conduzir no
seu papel de organizadora de todos os aspectos da existência, da produção aos
costumes abrangendo a educação, eis o que faz mover a história.
Mas essa ambiguidade projeta suas
linhas sobre um foco indubitavelmente nítido no seu traçado, a Revolução
Industrial. É o que elide ao menos um pouco a complexidade do estudo do
Romantismo, já que permite compreender ao mesmo tempo a peculiaridade que se
torna irredutível agora, entre os processos culturais nacionais, e o
internacionalismo do movimento.
O Romantismo, nessa perspectiva,
é interpretado como o período de aliança entre a pequena e a grande burguesia,
antes que o pequeno-burguês tenha que enfrentar a opção de se transformar no
proletário autêntico, pós-Marx, ou se alinhar com a grande burguesia incapaz de
compreender o seu esforço e necessidades próprios. Assim o conceitua Carpeaux.
Mas é também o período em que o que contrasta essa aliança subsiste como algo
devotado a um fim, a nobreza como classe, a ideologia da Natureza que concede
ao ser humano o dom – impossível por sua atividade ou vontade – de tudo o que
nele é valoroso, assim como ser nobre é algo que se tem por nascimento, jamais
por conquista pessoal.
Mas como a evolução dessa
ambiência ao momento crucial da opção depende dos estágios da Revolução
Industrial, responsável pela eclosão dessa ordem social contemporânea, pode-se
compreender os processos culturais nacionais naquilo em que sua cronologia de
industrialização não coincide, só vindo a confluir decisivamente quando o
processo dessa “modernização” se dá por completo na Europa – então se estará na
ambiência da guerra imperialista de 1914, quando se deve resolver os rumos da
industrialização no restante do mundo.
Ora, tudo isso não anula a
importância da objeção quanto à referência de “um” movimento romântico. Com
efeito, os “romantismos” só tenderiam por esse meio a se multiplicar, seja na
contraposição de seus efeitos nacionais, seja na impossibilidade de situar o
que ele tem de internacional no panorama de uma lógica de classe, já que nesse
momento nem mesmo ocorre que todos os países europeus situem a oposição básica
de nobreza e burguesia, em muitos casos o estágio industrial sendo tão atrasado
que o conflito é apenas entre nobreza e campesinato: à pergunta “quem fala a
língua do romantismo”? teria que se sobrepor como resposta personagens cujas
finalidades são as mais contrastantes possíveis.
Assim a polêmica, no plano
estilístico-literário, se tipifica entre Wellek e Lovejoy. Em “conceitos de
crítica” René Wellek utilizou Lovejoy como contraponto ao seu intuito de
fornecer “o conceito de romantismo em história literária”, de modo que o
leitor não pode deixar de se aperceber do fato de que Lovejou é aí visado como
porta-voz de uma opinião de modo algum idiossincrática, mas bastante aceita
entre críticos de literatura, pela qual a palavra “romântico” teria deixado de “exercer
a função de signo verbal” por já poder significar qualquer coisa que se queira.
O que se pudesse apontar de denominador comum “nunca foi demonstrado claramente”
e as ideias românticas não só eram heterogêneas como logicamente independentes
e “essencialmente antitéticas umas das outras”.
Wellek, no entanto, continua a
crer que o conceito de Romantismo é teoricamente válido e útil. Assim ele
escreve seu artigo, inicialmente fornecendo uma cronologia do uso crítico do
léxico “romântico”, e depois recenseando as noções que ele localiza como
responsáveis pela legítima proposição de um estilo internacional de época
designado como Romantismo. No entanto, num anexo, Wellek exibe as reações que
seu artigo causou, especialmente a resposta de Lovejoy, o que permite a Wellek
proceder um “reexame do romantismo” . O problema então se desloca do
romantismo para o conceito de período, e Wellek recenseia quase toda a polêmica
assim formada, desde Lovejoy e Crane a Paul de Mann e Hartman, abrangendo
numerosos críticos.
Lovejoy e Crane se tornam agora a
exceção, insistindo na recusa de uma conceituação válida, de modo que sua
atitude é tipificada por Wellek através da grande objeção de Valéry: é
impossível pensar seriamente com palavras como Classicismo, Romantismo,
Humanismo ou Realismo”, ou seja, ninguém fica bêbado “com rótulos de uma
garrafa”. Mas o recenseamento crítico de Wellek, que ilumina bastante quanto às
visões do Romantismo através de tantas obras teóricas importantes, enfatiza que
existe “acordo convincente”, pois excetuando-se aquelas recusas explîcitas,
encontra-se sempre “a implicação de imaginação, símbolo, mito e natureza
orgânica”, compactuando o mesmo “esforço para superar a cisão entre sujeito e
objeto, o eu e o mundo, o consciente e o inconsciente” como conceitos críticos
que designam o “credo central dos grandes poetas românticos na Inglaterra, na
Alemanha e na França”, ou o “corpo de pensamento e sentimento em perfeita
coerência”.
Penso que Wellek não está errado
ao constatar uma coerência notável, mas não creio que isso seja tanto a “essência
ou natureza” do Romantismo. A tentativa de identificar sujeito e objeto,
conciliando todos esses termos antitéticos apontados, pode ter sido vista como
um aspecto na poesia, mas certamente é algo que não se limita ao fazer poético,
ou melhor, a conceituação mesma de poesia nessa época responde por uma
coerência que é superior ao só fazer da arte. Podemos compreender a importância
e abrangência desse fenômeno, inteiramente dependente do quadro da superação da
nobreza como classe, através da mudança de sentido dos termos “natureza” e “história”.
Temos visto exaustivamente que
nos éculo XVII a natureza era um todo abrangente, ainda que bifurcado pela
linha da Dobra barroca. Assim, o mecanicismo cartesiano, sua ânsia de compreender
geometricamente a extensão, compactava o espaço do quadro pelo qual compreender
o funcionamento de uma série factual significava localizar a sua
adjacência, assim o mecanismo corpóreo na dependência dos espíritos animais
poderia sempre ser revertido pelo controle da alma, a série fixa das espécies
se comportava de modo a permitir a sobreposição do grafismo e do exemplar, as
línguas evoluíam do simples ao complexo. Já no século XVIII, natureza se torna
o modo específico de cada ser que mantém com os outros seres uma relação de
movimento, não de adjacência. Funcionamento agora significa algo como o
desenvolvimento interno de faculdades, a partir de uma gênese. Em vez de
quadro, uma organização.
Ora, nesse período inicial do
século XIX o conceito de natureza evolui para aquele de uma competence
sem performance. Utilizando a terminologia de Chomski, sabe-se que a competence
é a invariância de um funcionamento autônomo, o da langue. Mas nessa
abrangência epistemológica que é a da nossa atualidade, essa invariância só se
garante como autonomia porque ela se reporta a uma performance, a uma
realidade atuante da prática da linguagem como parole. A novidade aqui é
que esse complemento de invariância e variação permite uma ciência da
linguagem, não só porque localiza constantes, mas porque assim a linguagem se
torna uma realidade como objeto independente para uma ciência individualizada.
A lingüística não precisa dar conta da psicologia nem do significado do ser
humano no universo, porque a linguagem guarda um funcionamento perfeitamente
explicável na independência de si como fenômeno da articulação do signo.
Nada disso é postulável nesse
período inicial do século XIX, se bem que já não se precise, tampouco, pensar o
desenvolvimento interno de faculdades ou funções a partir de uma corrente que
as reponha na circulação total da Natureza. O exemplo mais abrangente aqui é a
onto-psicologia que perdura por todo esse momento, especialmente no ambiente do
espiritualismo.
É interessante verificar que essa
psicologia, destinada a uma superação conclusiva pelo surgimento da psicologia
como ciência, entre os anos sessenta e setenta desse século, estendeu seus
efeitos à contemporaneidade pela via da filosofia, no intuicionismo de Bérgson
ou mesmo no existencialismo.
No entanto, aquilo pelo que ela
se caracteriza nesse momento “romântico” – de Maine de Biran a Vitor Cousin, é
exatamente a localização do problema psicológico em termos de uma competência
que, no entanto, ao invés de remeter às regras de uma realização prática,
servem para explicar o ser do humano, mantendo-se, na completa exterioridade de
uma possibilidade experimental, no âmbito ontológico de uma inserção do
significado de Ser – e assim a legitimidade de conceituar esse movimento como
espiritualismo, já que a vertente desse Ser humano deve ser postulável como uma
região que é Espírito.
Ao mesmo tempo temos assim um
critério do sentido desses empreendimentos, pois se um Maine de Biran acolhe o
sentido ontológico da psicologia como descoberta da Existência, Vitor Cousin e
os espiritualistas muito imbuídos de catolicismo devem reconduzi-la ao Ser como
essa região do espírito. Ora, no momento posterior, quando as classes presentes
já não se constituem ou se diferenciam pelo que são, por seu nascimento,
mas pelo que fazem, e assim temos a burguesia e a classe trabalhadora como
aqueles que servem à industrialização ou àqueles que dela possuem e controlam
os meios, não se pode postular um funcionamento sem perguntar ao mesmo tempo
pela sua realização.
Reencontramos assim, nessa
persistência do Ser, anterior a esse momento, aquela tentativa de síntese que
Wellek atribuía exclusivamente ao romantismo, de modo a anular a espessura do
humano e do natural, do sujeito e objeto – e porque não de uma classe nobre por
nascimento e uma burguesia da Gironda, que agora devia estar se concedendo o
mesmo aporte “libertino” e “moderador” da antiga nobreza, seja por relação ao
modo de se auto-compreender, seja pela necessidade de coibir o que a ela vinha
a se opor, a pequena burguesia jacobina e o nascente proletariado?
Quanto a isso penso ser decisivo
aquilo que Bréhier observou sobre Cousin, a saber, que ele interpretava o
kantismo como uma psicologia. Ora, justamente o transcendental kantiano opera a
anulação daquelas dicotomias, atuando como fator essencial no âmbito mesmo do
que Wellek conceituou nos termos exclusivos da poesia. A inserção de Kant nesse
panorama torna-se fundamental à compreensão do que está em curso. Como uma
visão mais aproximada do kantismo só se deverá verificar no decurso da
exposição, aqui penso ser preciso registrar a relativização com que o termo competence
está sendo utilizado no contexto do espiritualismo, pois com isso obviamente
não designo um conjunto de regras de derivação no sentido estrito da lingüística
atual, e sim o que na época se distingue das deduções do período anterior
conforme a prática dos ideólogos, e se exercita como a inserção de funções e
faculdades que devem abranger o funcionamento mesmo da psique, ao mesmo tempo
do ponto de vista da introspecção e da inserção ontológica.
Quanto à história política dessa
época, vemos que não pode ser compreendida apenas como uma oposição de
burguesia (girondinos e jacobinos) e nobreza (clero e cortesãos), mais o
funcionalismo que gravitava em torno do Rei (ultra-realistas). Ela abrange, nos
interstícios do panorama de alternância entre revolução-império versus
restaurações, a latência de um outro aporte revolucionário, que atua sob todos
esses movimentos de contestação à restauração da nobreza e que só se revela no
seu singular estatuto após 1848, a saber, a tendência socialista que assinala a
cisão no interior da classe média e o surgimento de uma classe trabalhadora.
Abrange também o novo papel do
intelectual, como não-classe, à margem do processo político. Se no ambiente
revolucionário do pré-romantismo ele havia atuado decisivamente na formação de
uma consciência de classe burguesa, agora o predomínio dos valores
exclusivamente utilitários da burguesia, mais a crescente especialização dos
ramos do saber, atua no sentido de tornar necessário uma revisão das relações
de intelectualidade, principalmente no âmbito da criação artística, e
sociedade.
O sintoma da ambivalência de
valores no meio burguês abrange os dois impérios napoleônicos, mostrando a indecisão
pequeno-burguesa no reconhecimento de sua situação que a emergência da classe
trabalhadora põe cada vez mais em evidência enquanto irredutível ao Estado
Liberal de banqueiros e industriais. Ora, se o Romantismo como uma época
estilística está longe de apresentar uma solução poética entre valores
antagônicos, a poesia e a literatura servindo muito mais, inversamente, para
tornar patente a sua irredutibilidade, o que o plano literário expressa em
termos desse antagonismo é uma série de tendências contraditórias, que devemos
examinar pormenorizadamente: Estado e nação, política e sociedade, modernização
e identidade de povo, passado como tradição e passado como atuação, tantos
termos que se tornam agora antagônicos ao expressar as transformações no trânsito
da era moderna à contemporânea, via revolução industrial.
O que se mostra por esse meio,
contudo, não é a obsolescência dos estudos sobre “o” contestável conceito estilístico
de romantismo unificado , mas sim que o estudo da literatura de época
romântica é extremamente útil na compreensão desse momento inicial do século
XIX, dos antagonismos que a modernização e o Estado nacional consolidado impôs
à sociedade.
Isso não significa que temos uma
época na qual, ao lado de um estilo romântico predominante, se sobrepõem
contracorrentes, no entanto importantes, que com ele coexistem, mas sim que na
subsunção de uma época romântica, sobrepõem-se várias correntes, vários
romantismos, que nem podem ser caracterizados como um só estilo, nem podem, por
isso mesmo, ser designados como contracorrentes ao que seria esse estilo.
A especificação dos romantismos,
algo sugerido por Lovejoy como a necessidade de se discriminar o significado
exato que o termo está associando em cada caso, sem prejulgar uma significação universal
única que só serve para obscurecer o que se está procurando evidenciar a cada
vez, é aquilo de que precisamos para compreender o que está em curso nessa
época em termos de transformação social. Esse é o uso que Carpeaux observa ao
tratar o termo romantismo no plural quando se trata do título de capítulos em
que se deve historiar os desenvolvimentos concretos do movimento, enquanto que
o “romantismo” no singualar se rerva aos capítulos em que se mostra a
multiplicidade seja de fontes, seja dos fenômenos sociais que influem na época.
Ao mesmo tempo, por paradoxal que
pareça, as observações de Wellek sobre conceitos onipresentes no que seria por
esse meio caracterizável como um movimento coerente, não deixam de apresentar
interesse, ainda que não por provar a unidade internacional do rótulo, mais por
mostrar como esses conceitos se articulam com os problemas mais importantes que
essa transformação impôs ao pensar. O texto de Wellek tem também um valor
inestimável quanto ao seu teor informacional. É aqui que poderemos compreender
a transformação que sublinhei, concernente ao termo “história”.
O que se depreende, quanto a
isso, da leitura de Wellek, e que Carpeaux confirma inteiramente, é que a
introdução do termo Romântico, entre os séculos XVII e XIX, na crítica
literária, se relaciona ao intuito que será característico do romantismo
estrito, enquanto movimento estético ou estilo de época canônico em história da
Literatura. Esse intuito se mostra como uma contraposição, que só faz crescer
até atingir a maturidade no século XIX. O que está sendo contraposto é o dogma
classicista que apenas se sobrepõe à mentalidade de toda sociedade tradicional,
a saber, que no passado um certo conjunto de acontecimentos resumiu todo o
sentido da história posterior, que só se compreende a partir do conhecimento
desses acontecimentos fundadores. A isso se pode designar o alicerce mítico
da sociedade tradicional antiga, transposto a partir da Renascença, como
consciência histórica .
O que Renascença e classicismo
fizeram foi transpor esse fundamento mítico, que creio não haver problemas em
se evidenciar como característico de uma sociedade como a cristã feudal, à
Grécia e à Roma da Antiguidade. Ora, na medida em que a tradição assim
designada “clássica”, greco-latina, deve prover o sentido ou o paradigma do que
se faz na atualidade, ou seja, o sentido da história, esse conjunto de textos e
preceitos ou de acontecimentos do passado clássico são “a” história a conhecer.
Assim qualquer tarefa que deva se
incumbir da produção literária, por exemplo, só tem como meio mostrar a
relação, mais ou menos exitosa, de imitação do modelo clássico. Também, do
mesmo modo, a compreensão da sociedade de hoje se torna um negócio de comparar
os fatos com aqueles, modelares, da antiguidade, e desenvolver as conseqüências
dessa aproximação – ou afastamento, pois o que se revela problemático no agora
pode bem ser devido ao desvio em relação ao que foi outrora, ou seja, ao que
devia estar sendo repetido.
É oportuno sublinhar que ao
transpor o alicerce mítico numa consciência histórica, o que a aurora moderna
do Ocidente operou foi notável, pois nas sociedades tradicionais, a relação
mítica dos acontecimentos inaugurais ou fundadores com o presente se assegura
de modo “sagrado”, isto é, não explicável mas revelado, enquanto que o modelo
histórico clássico deve surgir como a racionalidade imanente ao devir,
teoricamente assegurada, de que tudo o que se desvia parece não transgressivo,
mas irracional ou aberrante ou imoral.
O que começou a se contrapor a
isso, a esse modelo de história clássico tradicional, no plano literário, se
esboça na transição, entre os séculos XVII e XVIII, na França e na Inglaterra,
conforme Wellek. O exemplo palpável que ele fornece, porém, pertence já ao
contexto do pré-romantismo no século XVIII, a History of English Poetry
(1774 – 1881) de Thomas Warton. Aqui a novidade é que autores típicos do
barroco, assim como os romances de cavalaria do período feudal, evidentemente
não passíveis de se compreender a partir do paradigma clássico, não são apenas
ignorados ou criticados como casos falhos, de que se deve recuperar apenas o
que a custo podemos aproximar do modelo, mas são pensados na positividade de
seu estilo irredutível e para reunir tudo o que não se designa clássico, utiliza-se
o termo “romântico”.
Ora, por esse meio o que se
permite iluminar é também a criação nacional, pois se em geral ela se nutre da
inspiração popular, dos contos e lendas do repositório da memória do povo,
então ela não pode se inscrever na adoção dos modelos clássicos greco-romanos,
nem pode pretender uma designação unívoca, um rótulo pelo qual se explica a
extrema variedade de formas e temas, mas exige uma transformação na atitude
crítica, que deve ser flexível o bastante para compreender a irredutibilidade
cultural das nações e épocas. Assim Carpeaux relaciona Warton e Herder, como se
Warton fosse um precursor da crítica literária de nacionalidades que Herder
cinzelou.
Esse conceito de história, como
uma atuação do povo que se desenvolve continuamente no tempo, de modo que todos
os acontecimentos numa certa linha de pertinência – por exemplo, política ou
estética – se somam conduzindo ao presente, se enuncia como “história
progressiva”. Ele se contrapõe, como vimos, simetricamente, a uma “história tradicional”
como acesso a certo núcleo factual parado no momento que se considera principal
do passado. O rótulo romântico, contraposto a clássico, se introduziu assim
como a senha de um método crítico, não como a definição unívoca de um estilo.
Romântico devia ser aquele conjunto de produções a que, para se compreender o
sentido imanente, se devia proceder um estudo próprio, ao invés de poder ser
lido a partir de um cânon estabelecido de antemão.
Se o “romântico” arrolava assim
tanto realizações nacionais irredutíveis, como criações do barroco e do período
feudal, o que pertencia exclusivamente a esse passado cavalheiresco poderia
aparecer como “gótico” contraposto a “clássico”. Note-se que assim os dois
termos contrastados tem um mesmo sentido, sendo ambos estilos definidos,
enquanto que na oposição de “romântico” e “clássico”, o sentido dos termos não
permanece no mesmo nível. No entanto, como entre os sentidos de romântico
estava a produção cavalheiresca, encontra-se por vezes uma sobreposição de “gótico”
e “romântico” , como sinônimos. Wellek registra essa ocorrência em Herder.
Ora, o núcleo desse estilo
cavalheiresco pôde ser separado, conforme a índole do crítico, de modo a se
tornar algo em si recuperável no presente. Assim, Herder conceituou o gótico
romântico como uma mistura de religião cristã e regras cavalheirescas de modo a
resultar o gosto espiritual e devoto que Herder associou ao italiano. No
entanto, esse conceito se tornou comum no pré-romantismo e Eichorn o aplicou
também à literatura espanhola. O uso se ampliou e à época de Warton, Ariosto e
Tasso, Shakespeare, Calderón e Cervantes são designados “românticos”.
Contudo, é com Novalis e os
irmãos Shlegel que o termo se torna aplicável no sentido modelar, ao presente.
Assim, não apenas a história literária pôde se ampliar, de modo a não se
delimitar apenas aos “clássicos” antigos e ao classicismo francês que o imitva.
Se o termo romântico permitiu que se recuperassem obras importantes, agora, a
partir das Conferências sobre arte dramática e literatura (1809 – 11) de
William Shlegel, tudo o que se produzia como romances e contos de fadas, de
tipo peculiar, conforme a definição adotada de Novalis, poderia se considerar
também romântico, teorizável, compreensível.
As conferências de Schlegel inovaram
por inicialmente associar simplesmente tudo o que pertencesse à cristandade,
feudal e renascentista, como “moderno”, não – clássico, e portanto “romântico”:
isso devia abolir o traçado da arte da Renascença como clássica, ainda que seus
autores admirassem a antiguidade. Mais tarde as conferências incluíram a ideia
de que a antítese romântico-clássico poderia ser associada como aquela entre
orgânico-mecânico ou pinturesco-plástico. Nesse momento, Schlegel retorna a uma
concepção que permite separar tanto a antiguidade quanto o neo– classicismo ( a
poesia de perfeição ), das manifestações poéticas do desejo infinito que seriam
românticas, e assim não mais propõe apenas um corte temporal tipo greco-romano versus
cristão. Contudo, conforme Wellek, a adoção do termo “romântico” como
enunciando um movimento artístico da contemporaneidade dos críticos só ocorre
com Bouterwek em 1819 e Heine em 1833. A obra de referência parece ser a de
Haym, que arrolou o grupo de Iena como “escola romântica”: os Shlegels, Novalis
e Tieck, que, no entanto, não se consideravam a si mesmos como pertencendo a um
estilo comum.
O conceito de romantismo como
estilo de produção de contos de fadas, pitoresco, sem aspiração ao fechamento
perfeito mas compreendendo o desejo infinito, que veio de Schlegel, se
generalizou e da Alemanha conquistou a Europa: Wellek registra a influência do
romantismo alemão na Suécia, Dinamarca e Holanda. O mundo latino e a América do
Norte recebem essa influência por meio de Madame de Staël, cujo De l’Allemagne
inclui o paralelo de clássico e escultural, romântico e pinturesco, drama
grego de acontecimentos e drama moderno de caracteres, a poesia do Destino
contra poesia da Providência, poesia da perfeição contra poesia do progresso.
Essa conceituação que é também de Schlegel, foi utilizada por Coleridge, mas
suas conferências, tendo sido publicadas bem mais tarde, não desmentem o mérito
de Madame de Staël como responsável pela influência romântica no mundo latino.
Wellek, porém, registra o Lectures on General Literature, de James
Montgomery (1833), que veremos desempenhar importante papel na evolução do
romantismo.
O termo assim introduzido causou
polêmica, pois para os clássicos significava apenas mau uso da rima, lirismo
vazio. Assim, o alinhamento de autores da época, ou da história recente, como
românticos em alguma obra crítica, tanto poderia significar uma severa
depreciação de sus criação quanto uma valorização que transformava o autor no
fundador de algo que agora parecia mais como um movimento do presente. A
avaliaçãoatual quanto ao papel histórico dessas críticas, porém, não parece
consensual. Assim, a importância da obra de Montgomery se relaciona a que ele
lançou a ideia amplamente aceita de Southey, Wordsworth e Coleridge como
fundadores do estilo na Inglaterra, o que Wellek não contesta. Carpeaux
considera essa ideia, ainda que tão propalada, como uma fable convenue.
Já a batalha d ‘ Hernani, isto é, a polêmica causada pela encenação da
peça de Vitor Hugo, em 1830, considerada por Carpeaux como o marco do
romantismo francês como estilo predominante, algo de que não há comparação na
Alemanha ou na Inglaterra, pois toda a juventude se mobilizou para superar a
oposição acadêmica na noite de estreia da peça, parece a Wellek algo que
propende a induzir contra-sensos.
Pois Wellek argumenta no sentido
de que, ainda que o De l’Allemagne tenha tido importância considerável
por fornecer através da conceituação de Schlegel algo como uma autocompreensão
de época quanto ao que estava ocorrendo no plano estético, nem mesmo na
Alemanha se pode considerar as realizações artísticas do romantismo como algo
derivado apenas do passado nacional. Assim, Wellek pensa que o decisivo nesse
movimento alemão é a influência que certas tendências espiritualistas – de
Jacob Boëme, Spinoza, Giordano Bruno – exercem, enquanto na França bem antes de
1830 o essencial quanto à estética romântica já vinha se desenvolvendo. O caso
francês seria exemplar já que o espiritualismo teve bastante peso, desde o
pré-romantismo e o iluminismo místico, .
O que se deve inferir assim é que
o romantismo é uma estética singular, bastante bem conceituável, independente
de idiossincrasias nacionais ou históricas. Portanto, se na Alemanha o
movimento foi mais forte do que nos outros países, isso não se deve a que a
realização estética derive daí, sendo que deve ser considerado algo
generalizado como estilo de época, mas que o atraso da industrialização causou
um interregno maior não controlado pela burguesia racionalista. A “inteligentzia”
do romantismo alemão, mais do que o inglês e o francês, teria se emancipado da
necessidade de engajamento político pelo fechamento do regime, devendo criar
uma literatura de evasão, na exterioridade da realidade comum ou da preocupação
social.
Aqui, apesar das divergências,
temos algo comum a Wellek e Carpeaux, pois se este último não pretende de modo
algum acentuar uma tão assegurada unidade conceitual, sua descrição da evolução
dos romantismos nacionais utilizando como estratégia a sobreposição dos gêneros
múltiplos que expressam várias intenções sociais convergindo no movimento como
um todo, há a mesma evidenciação de que esses gêneros são muitas vezes de
reação à modernização: tanto nos sentidos negativos de uma veiculação das ideias
da nobreza ou da alienação política, quanto positivo de uma valorização da
cultura popular e da identidade nacional. No entanto, Carpeaux sabe evidenciar
a gama múltipla desses interesses, enquanto Wellek pensa que há a possibilidade
de fusão, numa só fórmula, de todas esssas vertentes. Wellek quer evidenciar
apenas o aspecto formal, considerando o nível de intenções, politicamente
interpretável, apenas como algo marginal ao fenômeno estético.
Conforme Capeaux aquilo que a fable
convenue reuniu em torno de Coleridge, Wordsworth e Southey – este último
autor de uma História do Brazil, nessa época em que o fenômeno estético
literário devia ser encontrado na produção de todos os lugares, já que devia
poder ser conceituado indendentemente do modelo clássico, o que aumentava o
interesse por nacionalidades “exóticas” – se designa não tanto a partir do que
ela conceituou, ou seja o comum “romantismo” desses três poetas, mas sim o
gênero que praticaram, a Lake Poetry.
Assim, pode-se localizar o que
seria o percurso dos lakistas – poesia do lago, que se faz em regiões
bucólicas, afastadas do ambiente urbano e que se caracteriza por uma forte
valorização da natureza de índole místia e visionária: início revolucionário,
pró-1789, depois conversão religiosa, renúncia do progressismo das luzes,
busca, por meio da poesia, da revelação mística. A Lake Poetry foi cultivada
pela nobreza europeia, temerosa da revolução, como na Polônia e na Alemanha, de
modo que a mentalidade predominante, abrangendo a temática das raízes
nacionais, se impregna de valores conservadores, típicos da reação.
Carpeaux observa que não
reduzindo-se à reação, a Lake Poetry produziu poderosa música verbal, e que
Coleridge enunciou, como crítico literário, algo não redutível a esse
esteticismo puro. Sua oposição entre Fancy ilusória e Imagination
criadora, aquela redundando no mero esteticismo, esta permitindo a visão
mística que obriga a autêntica “suspensão da descrença” que se exige
para a compreensão e apreciação da obra de arte, não deixam de ser valores
peculiares à Lake Poetry, que parece assim não se esgotar no descompromisso
político e alcançar uma ressonância mais espiritual. Carpeaux considera a
teoria de Coleridge como ligação entre o lakismo e o romantismo autêntico de
Iena, o meio universitário que compôs o movimento em torno dos irmãos Schlegel.
Contudo, Carpeaux pensa que se
pode, sim, pensar um estilo europeu romântico. Ele seria algo voltado ao mesmo
tempo contra o passado e o futuro: o passado sendo o neoclássico decorrente da
Revolução via Império, e o futuro sendo o racionalismo que o Realismo tornará
esteticamente relevante, mas que designa a modernização industrializante do
mundo plenamente burguês – a era que Burke conceitou como a dos “sophisters,
economists and calculator”. Ora, o que decorre dessa rejeição é a valorização
do subjetivismo emocional, sendo “emoção” algo não definível por princípio.
Logo, Carpeaux observa que seria mais conveniente utilizar “romantismos” no
plural, já que esse subjetivismo pode ser relacionado a intuitos os mais
vários.
No entanto, historicamente aquilo
que veio dessa multiplicidade de intenções confluiu a partir do contato pessoal
ampliado entre os intelectuais europeus, algo peculiar a esse momento, de modo
que é por isso que o estilo se tornou internacional – de todos o mais homogêneo,
mas só a partir dessa confluência, como um fato a posteriori, não
derivado do modo de ser único conceituável simplesmente nos termos da oposição
ao objetivismo, já que, isso que serviu de base à conceituação de Wellek é,
para Carpeaux, justamente o que não permite uma compreensão precisa em
termos de suas múltiplas realizações efetivas.
A ânsia de uma síntese de sujeito
e do objeto, ou o subjetivismo que parece designar a mesma síntese, aparecem
assim, em Wellek e Carpeaux, como um mesmo conceito relacionado, porém, a
métodos irredutíveis de tratamento do fenômeno romântico.
Wellek enfatiza como algo comum
no início do romantismo a oposição a Pope, poeta de perfeita expressão do common
sense. Carpeaux relativiza um pouco essa rejeição, mostrando que ela não
ocorre em Byron, mas de modo geral confirma a impressão oriunda do romantismo
de que senso comum e poesia são antitéticos, o que contribuiu para o
esquecimento da poesia de Pope nessa época.
O essencial aqui, a imaginação,
está se encarregando de transpor o milagre do sagrado ao fantástico, laicizando
ou humanizando o mistério. Assim o romance gótico do século XVIII encontrou a
oposição do novo “Shilksalsdrama” que deslocou até mesmo a preferência do
romance sentimental – em vez de contos de terror nos castelos, as complicações
misteriosas cujo encadeamento só se deve ao destino, não às assombrações ou aos
sentimentos.
O milagre fantástico é algo que a
literatura deve à criação, como exercício puro da imaginação, não à fé, ou à
aceitação do sobrenatural ou mesmo a compreensão do íntimo dos personagens.
Assim tanto se pode criar quanto desfazer, não por uma lógica qualquer, por
exemplo, porque algo é mal, mas pelo jogo complexo da criatividade. Os
romantismos encenam contra-relatos: o processo da “Rahmenerzaehlung”, ilusão
teatral na qual a história é narrada por um personagem, desmentido por outro
personagem que conta novamente a mesma história mas com um outro
desenvolvimento ( Wackenroder) ; a extensão desse processo quando se trata de
reverter a Paideia oficial, vista agora como falsos princípios de educação
oriundos dos ambientes politicamente comprometidos (Jean Paul, Byron);
A reversão da identidade pelo
duplo, tema essencialmente romântico, pode a meu ver ser tratada também como um
processo de contra-relato. Ele atua a partir de uma história do sujeito
enquanto aquele que experimenta um processo de relato perdido, por exemplo os
ideais traídos da Revolução ou alguém destituído do que pensava ser e que
depois, por seu esforço concertado acede a algo como um relato reencontrado,
por exemplo, o império napoleônico ou algum estado satisfatório na vida. No
entanto, o destino encena o seu contra-relato, nesse exemplo o que seria a
latência de uma revolução socialista ou a manifestação da restauração da
nobreza, ou um duplo que lhe contesta a identidade – sendo que por vezes o
duplo, que pode ser um sósia, se torna ameaçador apenas porque o personagem não
cumpre o pacto previsto no reencontro do seu relato que só havia se tornado
possível pela intervenção do duplo ou sósia, como em Hoffman. Ora, isso permite
reintroduzir o destino já que não foi apenas a iniciativa do personagem que
permitiu reconstruir a sua identidade: o Shilksalsdrama da história francesa
dessa época ou do percurso do personagem do romance. E Carpeaux interpreta o
tema do duplo a partir da quebra da realidade social pela Revolução.
Nesse mesmo âmbito insere-se a Comédia
não Divina, de Krazinski (1835), que Carpeaux situa como obra de questão
social, encenando o conflito da nobreza e do proletariado, ambas as classes
anuladas pela visão do sagrado, a Cruz – assim o relato “histórico” se
contrafaz por uma realidade separada. Se essa comédia é não-divina, o relato de
Dante também se contrafaz. Pois Krazinski localiza essa realidade do Sagrado
não nos termos de uma finalidade lógica, as regiões de destinação das almas
consequentemente estatuídas pelo sentido dos seus atos e escolhas, como fez
Dante. A contrafacção se garante pelo patético dessa realidade que não excede a
pura Visão, não sendo mais que Símbolo, logo, algo imanente ao fazer artístico
que se torna não apenas sobreponível, mas mais efetivo do que a luta – já agora
sem sentido – entre “classes”, sujeitos igualmente ilusórios de uma falsa
situação vivenciada, no entanto, como o relato que o prosaísmo, o common sense,
o cálculo racional, poderiam ter por objeto: aquela realidade mesma do
cotidiano, assim falseada, como uma teoria inadequada do que é o Real.
Assim a arte de Kleist que
reverte todas as expectativas da lei. A partir de uma ambiência bem posterior,
quando a ordem burocrática se transforma na realidade do mundo burguês, Kafka
tematizou a lei como absurdo, uma forma vazia. Em Kleist, tipificando o
problema romântico, a lei não é ainda absurda, ela é insuficiente. A lei é objetividade,
a pessoa pertence a uma ordem irredutível, subjetiva. A boa intenção, conforme
à lei, é forçosamente punida, eis o que o fatalismo shicksalsdramen de Kleist
sempre encena através de personagens que por suas virtudes e serviços só
recebem o oposto do que queriam ou esperavam. Isso porque a lei é injusta com o
indivíduo ao mesmo tempo em que fundamenta a sociedade – o conflito se instala
entre o particular e o geral assim como o ambiente pós-revolução não pôde
absorver o programa iluminista nem desenvolver todas as conseqüências do
kantismo, que a sociedade da época de Kafka tipifica. O personagem de Kleist,
punido pela lei social, o foi só por ter tentado agir conforme a lei da
virtude. O texto da lei, relato do Bem, encontra o seu contra-relato na
espessura entre o sujeito e a sociedade.
A lei “social” ou seja, que
fundamenta a sociedade, é política, a lei da virtude, sendo a da pessoa é a “social”
verdadeira, não política no sentido de ser o que favorece os que estão no
poder, mas que o expressa os direitos e garante a liberdade do povo. Esse “povo”
nunca contemplado devido ao uso da lei pelos poderosos – no entanto, essa
leitura já sociológica do problema não esgota a do romantismo que dessas
premissas evolui para uma confrontação mais básica entre a expressão da lei
como discursiva, logo objetiva, e o acontecimento pessoal irredutível,
subjetivo. Alguns gêneros dessa época expressam esse conflito do político e do
social, como o costumbrismo, o folclorismo e uma certa vertente do romance
histórico.
O costumbrismo explora a
descrição de costumes antigos, dentro de um ambiente social bem localizado, por
exemplo a Madri do Rococó ( Somoza , Artículos em prosa, 1842). O gênero
se endereça como crítica da modernização, como tentativa de preservar algo
original, uma identidade cultural, local ou nacional, isto é, o nível do
social, que o processo da industrialização ou da racionalização desloca de
maneira inexorável, sendo ao mesmo tempo manobrado politicamente pelo Estado.
O folclorismo, iniciado no romantismo
– Carpeaux localiza Goerres, professor da Universidade de Heidelberg como o
inspirador do movimento – recolhe fontes populares como poesias, músicas e
costumes, que podem vir a servir na elaboração estética nacional. Os contos de
fadas dos irmãos Grimm, também folcloristas, figuram como exemplo dessa
utilização. O folclorismo se tornou universal, algo que desde o romantismo se
encontra em todos os continentes. É observável o contraste, nesse âmbito, entre
os conceitos de cultura popular e “cultura” internacional, oficial.
Algo que não parecia claro até
então, pois a tradição situava a monarquia como detentora de um poder
unificador que devia ser culturalmente sancionado nos termos biológicos de
raça. No quadro europeu da época, por vezes um Estado recobre várias nações, e
o Império Napoleônico tendeu a homogeneizar politicamente territórios
culturalmente irredutíveis. O mesmo problema se enuncia no conflito jurídico
criado pelo código napoleônico, a cuja implantação nas outras nações europeias,
mesmo que por iniciativa do governo independente local por favorecer a
burguesia, alguns juristas confrontavam como imposição arbitrária. Surgia assim
dois conceitos de lei, a obra do “profissional” do direito e aquela que não
deriva dos códigos mas sim do “Volksgeist”, o espírito do povo.
Carpeaux situa geralmente essas
tendências opostas a partir da historiografia romântica, o que se estende ao
romance histórico. Ele contrapõe tipicamente Herder e Burke. A crítica de Burke
à revolução envolvia a ideia de que a evolução histórica deve ser gradual, não
violenta nem provocada pelo arbítrio. No entanto, essa ideia mantém o progresso
numa acepção global, enquanto Herder pensava que qualquer desenvolvimento só
pode ser criteriosamente avaliado conforme a lógica de cada nação. Assim o
romance histórico hesitou entre uma criação paternalista, burguesa mas
conservadora, e aquele de índole nacionalista, patriótica, podendo também
apresentar-se eivado de conservadorismo. A história paternalista recuperava o
passado institucional, enquanto que os patriotas procuravam recuperar a força
social atuante que deveria evidenciar o papel do povo na evolução dos
acontecimentos. Assim a partir de um mesmo tema, por exemplo, a sociedade
feudal, ora se poderia enfatizar as instituições de honra, fé cristã, heroísmo,
ora se poderia enfatizar a intervenção do espírito nacional, do povo, em cada
nó de acontecimentos.
O gênero foi cultivado a partir
do paternalismo, como evasionismo, explorando o pitoresco, o longínquo, na
acepção paternalista e burguesa. Já a patriótica apresentou-se por vezes
tendenciosa, forçando versões concordantes com a perspectiva nacionalista que
se intencionava marcar. Em geral Carpeaux assinala a substituição da
padronização – certas épocas consideradas históricas porque apresentando certas
características valorizadas, por exemplo o progresso da razão – pela
relativização das eras como igualmente importantes, devendo sua valorização
depender da compreensão da imanência de seus processos irredutíveis, isso que
hoje designa-se “senso histórico” tendo se originado aqui.
Carpeaux mostra que essa
conquista não eximiu historiadores como Michelet de interpetrarem o passado à
luz do presente, atualizando-o ou modernizando-o. Assim cada época devia sua
inteligibilidade ao modo como se endereçavam ao horizonte da atualidade
liberal, burguesa. Ranke introduziu a historiografia “positivista”, na qual se
devia permanecer isento desse anacronismo de Michelet, enquanto Thierry, Guizot
e Grevinus introduzem a “história política” que interpetra o passado conforme
oposições internas, não uma luta de classes (econômicas), mas de grupos
(políticos) governantes e oposicionistas. Interpetrada de modo nacionalista,
romântico, essa história política se tornou um instrumento de definição da
identidade cultural, nacional, em nações que ainda não haviam se
industrializado. O momento romântico, nesse sentido, é particularmente
importante no Brasil.
No entanto, ali onde a Indústria
ainda não penetrou, logo, onde o tradicionalismo de uma época na qual a nobreza
ainda subsiste como classe mesmo no contexto das revoluções políticas, a ambiguidade
dessa situação histórica muitas vezes se expressou num certo interregno de
dominação, seja de uma casta nobre, seja de uma burocracia monárquica, de modo que
se instalou uma severa censura, completa interdição de atuação política social,
a ação política se restringindo ao governo, ambientes totalmente vigiados,
controlados por uma polícia política rigorosa como na Restauração francesa – A
esse momento designa-se Biedermeier, um período que antecede a definição da
situação europeia e internacional a partir do republicanismo industrializado.
O Biedermeier se expressou como
estilo literário de esteticismo, exaltação do idílio, proivincianismo, cultivo
da música e das artes como símbolos de uma beleza pura, plástica, algo não
inteiramente romântico já que é um estilo de afastamento tanto do elemento
público quanto da infinitização do desejo. A atitude do Biedermeier é como a da
Lake Poetry, de descompromisso social, mas não mantém uma relação com a
natureza, inversamente caracterizando-se por um investimento da cidadezinha,
dos interiores, do vestuário, da mobília.
Creio que a situação do estilo se
tipifica pelo fato de Carpeaux localizar no brasileiro Manuel Antonio de
Almeida (Memórias de um sargento de milícias, 1855), um Biedermeier
latino-americano. Ora, sabe-se, e Carpeaux registra, que essa obra se costuma
classificar como de transição, na história da literatura do Brasil, entre o
romantismo e o realismo. O Biedermeier mantém elementos costumbristas, uma vez
que é nostálgico e lírico, altamente ilusório. Mas cultiva uma valorização das
coisas prosaicas, pequenas, do cotidiano, isto é, da atualidade, que o exime do
ardor da participação ou do anseio de participação política social, isso que se
vê proibido, mantendo-se na resignação da arte pela arte – o recalque desse
anseio, afinal bem saudável, pode se traduzir na atitude suicida de um Beddoes.
Carpeaux situa vários
acontecimentos como estabelecendo a superação do romantismo: o relato da
conversão de Newman ao catolicismo, exposição mais objetiva que pessoal ou
angustiada, a filosofia de Kierkegaard contra a igreja do seu país , a
renovação religiosa na França com Lamennais, o manifesto comunista de Marx.
Por todos os lugares há uma
identificação entre superação do movimento romântico e implementação da
revolução industrial. Assim, conforme Carpeaux, há uma vertente exclusivamente
francesa de romantismo social antecedendo a revolução de 1848 – o feminismo de
George Sand, a influência internacional de Hugo – que ele afirma dever-se ao
fato de que até essa época ainda não há propriamente revolução industrial na
França, sendo a exceção a Inglaterra. Assim a penetração da influência francesa
se deveria a uma homogeneidade da evolução econômica europeia no exterior do
ambiente inglês. (...)
Mas a partir de 55 o
desenvolvimento industrial na Europa é notável o suficiente para determinar a
separação das classes, a redefinição do espaço político que virá a constituir o
cenário da sociedade contemporânea. O Realismo, que surgiu no interior do
romantismo, desde aproximadamente a década de trinta do século XIX, como uma
tendência exagerada aos pormenores da descrição presente em escritores
tipicamente românticos como Scott, Hugo ou Mérimée, tornou-se um estilo
estabilizado a partir da descrição de costumes em Murger e Balzac, oposto ao
costumbrismo por tematizar o contemporâneo, sem nostalgia, com agudo senso de
perspectiva e restrição do relato ao descritivo. Observação minuciosa, análise
profunda – prospectos da Representação que deslocam inteiramente o subjetivismo
romântico numa ordem social destituída de significado intrínseco para investir
apenas a racionalidade funcional. A era dos sofistas – intelectuais pequeno-burgueses,
conforme Carpeaux – e dos economistas e calculadores, a burguesia.
O império pequeno-burguês de
Napoleão pareceu expressar uma via de compromisso com o prosaísmo, as ideias
limitadas do cotidiano. Mas a implantação da república impôs um modo de vida
anônimo, uma lógica de mercado que excluía a participação pelo papel cada vez
mais importante do monopólio, da grande indústria, da exportação. A
pequeno-burguesia proletarizada tornou-se socialista e utópica. A sociedade de
classes irredutíveis tornava-se uma evidência, de modo que sua contrafacção
pelo idílio ou pelo sentimentalismo se revelava agora como deserção de um
alinhamento necessário. A identidade pessoal se tornava um caso desse
alinhar-se político, a espessura romântica havia se exaurido. A aproximação de
Realismo e emergência das ciências humanas não se revela, porém, um tema
simples, até porque esse movimento coexiste com o que lhe sucede, a vanguarda.
É nesse momento de confluência que se poderá contextualizar a psicologia
científica de Fechner e Wundt, e a obra sociológica de Comte.
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